CRÓNICAS da MINHA TERRA
sábado, 20 de junho de 2020
quarta-feira, 22 de abril de 2020
terça-feira, 7 de abril de 2020
sábado, 13 de abril de 2019
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Jornal de Cá - 37 - janeiro 2019
A
cruzada concelhia em Marrocos (I)
À
semelhança do fluxo de jovens
do
concelho, saído
da terra e entrado na Força Aérea nos anos 60, também nas décadas
de 70 e 80 se verificou o êxodo de algumas franjas da população,
só que, desta vez, para o estrangeiro, mais
propriamente para Marrocos.
Esporadicamente,
aqui e ali, de modo individual, sempre houve alguém a sair para
tentar a sorte no estrangeiro, mas em grupo e
a termo era
coisa rara.
Tudo
começou em 1976, quando, após
concurso internacional,
foi
adjudicada à empresa Construções Técnicas, S.A.R.L, a construção
da Fábrica de Cimento de Oujda – Cimenterie
de l’Oriental - em
Marrocos. Sendo
eu empregado da dita empresa há
10 anos, fui
convidado
a fazer parte da equipa técnica destacada
para
o dito empreendimento, onde
cheguei em
outubro de 1976.
No
que concernia a mão-de-obra, o rácio inicial
acordado
entre o governo marroquino,
o
projetista/fiscalização da
Oscar
Faber & Partners UK e
as C.T., era de 1 para 5. Seja: 1 operário português para cada 5
marroquinos. Ora, sem qualquer espécie de chauvinismo, diria
que aquela
relação era mais romântica do que real. Na
verdade, numa obra de grande envergadura, com prazos fixos, num Plano
de Trabalhos relativamente apertado, em
cujo planeamento se estimava
que a carga
de mão-de-obra
entre artífices e auxiliares atingisse um total de 1500, seria
de todo impensável contarmos com o contributo de
cerca
de 1250 nativos.
Pelo
que se viu logo no início, a esmagadora maioria dos candidatos
chegados à obra era
composta
por
pastores, tosquiadores, agricultores e
contrabandistas,
mas tudo menos daquilo de
que
necessitávamos, que era gente da
construção civil, inclusive
mecânicos,
soldadores,
serralheiros
civis,
manobradores
e condutores. Se
o cenário inicial
fosse mantido, estou
em crer que ainda hoje a dita não tinha sido inaugurada. Negociações
alicerçadas em tal
facto, levaram a que, primeiro com um rácio de 1:3 e, mais tarde, de
1:2, o número de portugueses aumentasse exponencialmente em poucos
meses.
Mas
a tarefa de angariação de mão-de-obra portuguesa não se afigurava
tão fácil como a princípio se supunha. Por isso, no sentido de
ajudar a amenizar tal lacuna, mesmo não sendo minhas tais
atribuições, tentei convencer
alguns conterrâneos a marchar até ao
Magreb,
indicando-os
aos Serviços de Recrutamento da empresa em
Lisboa.
E foi assim que, de
modo faseado,
foram surgindo alguns valedapintenses por terras de
Hassan II. Mas
mais e mais portugueses, das mais variadas latitudes, chegavam todas
as semanas a Oujda.
Perfilhando
a genética lusa,
a adaptação de todos eles a esta zona oriental de Marrocos foi
fácil e rápida. O alojamento era bom. Comes e bebes havia com
abundância
no refeitório da obra; a
ementa, bastante variada, até metia carne de porco, vinho e
bagaceira,
tudo à fartura, ainda que isso contrariasse a religião muçulmana,
mas,
ali, quem mandava eram os tugas.
Aos
fins de semana era ver os
autocarros,
cedidos pela empresa, a transportar toda aquela malta para
a cidade de Oujda, no
inverno, e Praia de Saidia, no verão. Era
uma boa maneira de desanuviar o corpo e a mente, como se verá.
Jornal de Cá - 36 - dezembro 2018
O
Cartaxo Aeronautizado (IV)
Terminada
que estava a primeira fase da espinhosa missão da Polícia Aérea na
Picaria
de Alenquer, e já de volta à Base da Ota na posse das duas
encomendas
açorianas resgatadas da arena, chegava a hora de proceder à
entrega das
ditas ao oficial-de-dia
tenente Mineiro. Dos
seis ocupantes do jipe – eu, dois soldados da
ronda,
o condutor e os
dois bacanos açorianos – certamente que ninguém
estaria a pensar em
ser recebido com pompa e circunstância por parte do austero oficial;
muito menos os prevaricadores que, desfraldados,
empoeirados e, por
demais, doridos, mercê dos rebolões sofridos dentro da arena,
agravados pelos solavancos
que
apanharam no
jipe durante a viagem, achariam que já chegava de festança.
Depois
de um aturado trabalho de sapa iniciado no redondel da Picaria,
correndo o risco de sermos dizimados pela aficionada e
enfurecida
populaça,
o mínimo que se podia esperar do tenente seria, não um louvor, mas
uma mera palavra de apreço pelo
sucesso
da missão
levada a cabo. Porém, o oficial-de-dia, estando nos seus dias –
sempre
mal-humorado -
não defraudou as minhas expectativas.
A
sua
curta
receção, na
presença dos prevaricadores,
resumiu-se a isto:
-
Ora
bem! Com que então, estes dois javardos resolveram
estragar-nos o domingo,
não é assim? - e sem se deter - Agora, vão dormir aqui uns dias
(na Casa da Guarda) e veremos se ainda não terão que ir estagiar
uns tempos para Elvas. O
nosso cabo vai tratar
de fazer a participação desta ocorrência, com todos os detalhes.
Nesse
momento, um dos soldados da Picaria resolveu
mostrar as costas ao tenente, alegando ter sido agredido nas pernas e
no costado durante a atribulada viagem, tendo eu contraposto,
argumentando que o resultado de tais mazelas se devia,
principalmente, às marradas das vacas durante a atuação
do
duo na
faena.
Seria por demais evidente que alguns solavancos
apanhados no percurso entre Alenquer e a Base nunca se manifestariam
com tal amplitude. Por certo, pensaria o bacano que, com tal
argumento, iria ser louvado pelo espírito de sacrifício ou, então,
por bravura de
soldado,
tal como a
bravura das reses
que lhes aqueceram
os
corpos.
De
volta ao convívio,
e após ter analisado o mapa
lombar de
ambos, diz-me
o tenente Mineiro:
-
Leva
estas duas encomendas
à enfermaria
e,
depois, trá-los cá.
Depois
de vistos e tratados pelo 1.º sargento “Vitaminas”, entreguei-os
ao tenente e
lá fui
elaborar
o extenso e complicado texto da participação daquela rocambolesca
efeméride,
que
meteu vinho, toiros, arruaça e alguma pancadaria, no
rescaldo.
O
cartaxeiro
tenente
Mineiro vincava bem a sua personalidade e austeridade enquanto
militar. Além de fazer
por “desconhecer”
os seus conterrâneos que militavam na Base, era o único
oficial-de-dia que, pela
alvorada,
ia de camarata em camarata, batendo de porta em porta, quais
pancadas de Molière, a
fim de acordar
o
pessoal; mesmo
aquele que estava isento da
formatura do “café”. Por
razões óbvias, manda-me
o decoro que
não
reproduza
aqui as respostas emanadas do interior, mas que elas eram castiças e
bastante hilariantes, lá isso eram...
Subscrever:
Comentários (Atom)