terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Jornal de Cá - 37 - janeiro 2019


A cruzada concelhia em Marrocos (I)

À semelhança do fluxo de jovens do concelho, saído da terra e entrado na Força Aérea nos anos 60, também nas décadas de 70 e 80 se verificou o êxodo de algumas franjas da população, só que, desta vez, para o estrangeiro, mais propriamente para Marrocos. Esporadicamente, aqui e ali, de modo individual, sempre houve alguém a sair para tentar a sorte no estrangeiro, mas em grupo e a termo era coisa rara.
Tudo começou em 1976, quando, após concurso internacional, foi adjudicada à empresa Construções Técnicas, S.A.R.L, a construção da Fábrica de Cimento de Oujda – Cimenterie de l’Oriental - em Marrocos. Sendo eu empregado da dita empresa há 10 anos, fui convidado a fazer parte da equipa técnica destacada para o dito empreendimento, onde cheguei em outubro de 1976.
No que concernia a mão-de-obra, o rácio inicial acordado entre o governo marroquino, o projetista/fiscalização da Oscar Faber & Partners UK e as C.T., era de 1 para 5. Seja: 1 operário português para cada 5 marroquinos. Ora, sem qualquer espécie de chauvinismo, diria que aquela relação era mais romântica do que real. Na verdade, numa obra de grande envergadura, com prazos fixos, num Plano de Trabalhos relativamente apertado, em cujo planeamento se estimava que a carga de mão-de-obra entre artífices e auxiliares atingisse um total de 1500, seria de todo impensável contarmos com o contributo de cerca de 1250 nativos. Pelo que se viu logo no início, a esmagadora maioria dos candidatos chegados à obra era composta por pastores, tosquiadores, agricultores e contrabandistas, mas tudo menos daquilo de que necessitávamos, que era gente da construção civil, inclusive mecânicos, soldadores, serralheiros civis, manobradores e condutores. Se o cenário inicial fosse mantido, estou em crer que ainda hoje a dita não tinha sido inaugurada. Negociações alicerçadas em tal facto, levaram a que, primeiro com um rácio de 1:3 e, mais tarde, de 1:2, o número de portugueses aumentasse exponencialmente em poucos meses.
Mas a tarefa de angariação de mão-de-obra portuguesa não se afigurava tão fácil como a princípio se supunha. Por isso, no sentido de ajudar a amenizar tal lacuna, mesmo não sendo minhas tais atribuições, tentei convencer alguns conterrâneos a marchar até ao Magreb, indicando-os aos Serviços de Recrutamento da empresa em Lisboa. E foi assim que, de modo faseado, foram surgindo alguns valedapintenses por terras de Hassan II. Mas mais e mais portugueses, das mais variadas latitudes, chegavam todas as semanas a Oujda.
Perfilhando a genética lusa, a adaptação de todos eles a esta zona oriental de Marrocos foi fácil e rápida. O alojamento era bom. Comes e bebes havia com abundância no refeitório da obra; a ementa, bastante variada, até metia carne de porco, vinho e bagaceira, tudo à fartura, ainda que isso contrariasse a religião muçulmana, mas, ali, quem mandava eram os tugas. Aos fins de semana era ver os autocarros, cedidos pela empresa, a transportar toda aquela malta para a cidade de Oujda, no inverno, e Praia de Saidia, no verão. Era uma boa maneira de desanuviar o corpo e a mente, como se verá.

Jornal de Cá - 36 - dezembro 2018


O Cartaxo Aeronautizado (IV)

Terminada que estava a primeira fase da espinhosa missão da Polícia Aérea na Picaria de Alenquer, e já de volta à Base da Ota na posse das duas encomendas açorianas resgatadas da arena, chegava a hora de proceder à entrega das ditas ao oficial-de-dia tenente Mineiro. Dos seis ocupantes do jipe – eu, dois soldados da ronda, o condutor e os dois bacanos açorianos – certamente que ninguém estaria a pensar em ser recebido com pompa e circunstância por parte do austero oficial; muito menos os prevaricadores que, desfraldados, empoeirados e, por demais, doridos, mercê dos rebolões sofridos dentro da arena, agravados pelos solavancos que apanharam no jipe durante a viagem, achariam que já chegava de festança. Depois de um aturado trabalho de sapa iniciado no redondel da Picaria, correndo o risco de sermos dizimados pela aficionada e enfurecida populaça, o mínimo que se podia esperar do tenente seria, não um louvor, mas uma mera palavra de apreço pelo sucesso da missão levada a cabo. Porém, o oficial-de-dia, estando nos seus dias – sempre mal-humorado - não defraudou as minhas expectativas. A sua curta receção, na presença dos prevaricadores, resumiu-se a isto:
- Ora bem! Com que então, estes dois javardos resolveram estragar-nos o domingo, não é assim? - e sem se deter - Agora, vão dormir aqui uns dias (na Casa da Guarda) e veremos se ainda não terão que ir estagiar uns tempos para Elvas. O nosso cabo vai tratar de fazer a participação desta ocorrência, com todos os detalhes.
Nesse momento, um dos soldados da Picaria resolveu mostrar as costas ao tenente, alegando ter sido agredido nas pernas e no costado durante a atribulada viagem, tendo eu contraposto, argumentando que o resultado de tais mazelas se devia, principalmente, às marradas das vacas durante a atuação do duo na faena. Seria por demais evidente que alguns solavancos apanhados no percurso entre Alenquer e a Base nunca se manifestariam com tal amplitude. Por certo, pensaria o bacano que, com tal argumento, iria ser louvado pelo espírito de sacrifício ou, então, por bravura de soldado, tal como a bravura das reses que lhes aqueceram os corpos. De volta ao convívio, e após ter analisado o mapa lombar de ambos, diz-me o tenente Mineiro:
- Leva estas duas encomendas à enfermaria e, depois, trá-los .
Depois de vistos e tratados pelo 1.º sargento “Vitaminas”, entreguei-os ao tenente e lá fui elaborar o extenso e complicado texto da participação daquela rocambolesca efeméride, que meteu vinho, toiros, arruaça e alguma pancadaria, no rescaldo.
O cartaxeiro tenente Mineiro vincava bem a sua personalidade e austeridade enquanto militar. Além de fazer por desconhecer” os seus conterrâneos que militavam na Base, era o único oficial-de-dia que, pela alvorada, ia de camarata em camarata, batendo de porta em porta, quais pancadas de Molière, a fim de acordar o pessoal; mesmo aquele que estava isento da formatura do “café”. Por razões óbvias, manda-me o decoro que não reproduza aqui as respostas emanadas do interior, mas que elas eram castiças e bastante hilariantes, lá isso eram...