O
Cartaxo Aeronautizado (IV)
Terminada
que estava a primeira fase da espinhosa missão da Polícia Aérea na
Picaria
de Alenquer, e já de volta à Base da Ota na posse das duas
encomendas
açorianas resgatadas da arena, chegava a hora de proceder à
entrega das
ditas ao oficial-de-dia
tenente Mineiro. Dos
seis ocupantes do jipe – eu, dois soldados da
ronda,
o condutor e os
dois bacanos açorianos – certamente que ninguém
estaria a pensar em
ser recebido com pompa e circunstância por parte do austero oficial;
muito menos os prevaricadores que, desfraldados,
empoeirados e, por
demais, doridos, mercê dos rebolões sofridos dentro da arena,
agravados pelos solavancos
que
apanharam no
jipe durante a viagem, achariam que já chegava de festança.
Depois
de um aturado trabalho de sapa iniciado no redondel da Picaria,
correndo o risco de sermos dizimados pela aficionada e
enfurecida
populaça,
o mínimo que se podia esperar do tenente seria, não um louvor, mas
uma mera palavra de apreço pelo
sucesso
da missão
levada a cabo. Porém, o oficial-de-dia, estando nos seus dias –
sempre
mal-humorado -
não defraudou as minhas expectativas.
A
sua
curta
receção, na
presença dos prevaricadores,
resumiu-se a isto:
-
Ora
bem! Com que então, estes dois javardos resolveram
estragar-nos o domingo,
não é assim? - e sem se deter - Agora, vão dormir aqui uns dias
(na Casa da Guarda) e veremos se ainda não terão que ir estagiar
uns tempos para Elvas. O
nosso cabo vai tratar
de fazer a participação desta ocorrência, com todos os detalhes.
Nesse
momento, um dos soldados da Picaria resolveu
mostrar as costas ao tenente, alegando ter sido agredido nas pernas e
no costado durante a atribulada viagem, tendo eu contraposto,
argumentando que o resultado de tais mazelas se devia,
principalmente, às marradas das vacas durante a atuação
do
duo na
faena.
Seria por demais evidente que alguns solavancos
apanhados no percurso entre Alenquer e a Base nunca se manifestariam
com tal amplitude. Por certo, pensaria o bacano que, com tal
argumento, iria ser louvado pelo espírito de sacrifício ou, então,
por bravura de
soldado,
tal como a
bravura das reses
que lhes aqueceram
os
corpos.
De
volta ao convívio,
e após ter analisado o mapa
lombar de
ambos, diz-me
o tenente Mineiro:
-
Leva
estas duas encomendas
à enfermaria
e,
depois, trá-los cá.
Depois
de vistos e tratados pelo 1.º sargento “Vitaminas”, entreguei-os
ao tenente e
lá fui
elaborar
o extenso e complicado texto da participação daquela rocambolesca
efeméride,
que
meteu vinho, toiros, arruaça e alguma pancadaria, no
rescaldo.
O
cartaxeiro
tenente
Mineiro vincava bem a sua personalidade e austeridade enquanto
militar. Além de fazer
por “desconhecer”
os seus conterrâneos que militavam na Base, era o único
oficial-de-dia que, pela
alvorada,
ia de camarata em camarata, batendo de porta em porta, quais
pancadas de Molière, a
fim de acordar
o
pessoal; mesmo
aquele que estava isento da
formatura do “café”. Por
razões óbvias, manda-me
o decoro que
não
reproduza
aqui as respostas emanadas do interior, mas que elas eram castiças e
bastante hilariantes, lá isso eram...
Sem comentários:
Enviar um comentário