terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Jornal de Cá - 37 - janeiro 2019


A cruzada concelhia em Marrocos (I)

À semelhança do fluxo de jovens do concelho, saído da terra e entrado na Força Aérea nos anos 60, também nas décadas de 70 e 80 se verificou o êxodo de algumas franjas da população, só que, desta vez, para o estrangeiro, mais propriamente para Marrocos. Esporadicamente, aqui e ali, de modo individual, sempre houve alguém a sair para tentar a sorte no estrangeiro, mas em grupo e a termo era coisa rara.
Tudo começou em 1976, quando, após concurso internacional, foi adjudicada à empresa Construções Técnicas, S.A.R.L, a construção da Fábrica de Cimento de Oujda – Cimenterie de l’Oriental - em Marrocos. Sendo eu empregado da dita empresa há 10 anos, fui convidado a fazer parte da equipa técnica destacada para o dito empreendimento, onde cheguei em outubro de 1976.
No que concernia a mão-de-obra, o rácio inicial acordado entre o governo marroquino, o projetista/fiscalização da Oscar Faber & Partners UK e as C.T., era de 1 para 5. Seja: 1 operário português para cada 5 marroquinos. Ora, sem qualquer espécie de chauvinismo, diria que aquela relação era mais romântica do que real. Na verdade, numa obra de grande envergadura, com prazos fixos, num Plano de Trabalhos relativamente apertado, em cujo planeamento se estimava que a carga de mão-de-obra entre artífices e auxiliares atingisse um total de 1500, seria de todo impensável contarmos com o contributo de cerca de 1250 nativos. Pelo que se viu logo no início, a esmagadora maioria dos candidatos chegados à obra era composta por pastores, tosquiadores, agricultores e contrabandistas, mas tudo menos daquilo de que necessitávamos, que era gente da construção civil, inclusive mecânicos, soldadores, serralheiros civis, manobradores e condutores. Se o cenário inicial fosse mantido, estou em crer que ainda hoje a dita não tinha sido inaugurada. Negociações alicerçadas em tal facto, levaram a que, primeiro com um rácio de 1:3 e, mais tarde, de 1:2, o número de portugueses aumentasse exponencialmente em poucos meses.
Mas a tarefa de angariação de mão-de-obra portuguesa não se afigurava tão fácil como a princípio se supunha. Por isso, no sentido de ajudar a amenizar tal lacuna, mesmo não sendo minhas tais atribuições, tentei convencer alguns conterrâneos a marchar até ao Magreb, indicando-os aos Serviços de Recrutamento da empresa em Lisboa. E foi assim que, de modo faseado, foram surgindo alguns valedapintenses por terras de Hassan II. Mas mais e mais portugueses, das mais variadas latitudes, chegavam todas as semanas a Oujda.
Perfilhando a genética lusa, a adaptação de todos eles a esta zona oriental de Marrocos foi fácil e rápida. O alojamento era bom. Comes e bebes havia com abundância no refeitório da obra; a ementa, bastante variada, até metia carne de porco, vinho e bagaceira, tudo à fartura, ainda que isso contrariasse a religião muçulmana, mas, ali, quem mandava eram os tugas. Aos fins de semana era ver os autocarros, cedidos pela empresa, a transportar toda aquela malta para a cidade de Oujda, no inverno, e Praia de Saidia, no verão. Era uma boa maneira de desanuviar o corpo e a mente, como se verá.

Jornal de Cá - 36 - dezembro 2018


O Cartaxo Aeronautizado (IV)

Terminada que estava a primeira fase da espinhosa missão da Polícia Aérea na Picaria de Alenquer, e já de volta à Base da Ota na posse das duas encomendas açorianas resgatadas da arena, chegava a hora de proceder à entrega das ditas ao oficial-de-dia tenente Mineiro. Dos seis ocupantes do jipe – eu, dois soldados da ronda, o condutor e os dois bacanos açorianos – certamente que ninguém estaria a pensar em ser recebido com pompa e circunstância por parte do austero oficial; muito menos os prevaricadores que, desfraldados, empoeirados e, por demais, doridos, mercê dos rebolões sofridos dentro da arena, agravados pelos solavancos que apanharam no jipe durante a viagem, achariam que já chegava de festança. Depois de um aturado trabalho de sapa iniciado no redondel da Picaria, correndo o risco de sermos dizimados pela aficionada e enfurecida populaça, o mínimo que se podia esperar do tenente seria, não um louvor, mas uma mera palavra de apreço pelo sucesso da missão levada a cabo. Porém, o oficial-de-dia, estando nos seus dias – sempre mal-humorado - não defraudou as minhas expectativas. A sua curta receção, na presença dos prevaricadores, resumiu-se a isto:
- Ora bem! Com que então, estes dois javardos resolveram estragar-nos o domingo, não é assim? - e sem se deter - Agora, vão dormir aqui uns dias (na Casa da Guarda) e veremos se ainda não terão que ir estagiar uns tempos para Elvas. O nosso cabo vai tratar de fazer a participação desta ocorrência, com todos os detalhes.
Nesse momento, um dos soldados da Picaria resolveu mostrar as costas ao tenente, alegando ter sido agredido nas pernas e no costado durante a atribulada viagem, tendo eu contraposto, argumentando que o resultado de tais mazelas se devia, principalmente, às marradas das vacas durante a atuação do duo na faena. Seria por demais evidente que alguns solavancos apanhados no percurso entre Alenquer e a Base nunca se manifestariam com tal amplitude. Por certo, pensaria o bacano que, com tal argumento, iria ser louvado pelo espírito de sacrifício ou, então, por bravura de soldado, tal como a bravura das reses que lhes aqueceram os corpos. De volta ao convívio, e após ter analisado o mapa lombar de ambos, diz-me o tenente Mineiro:
- Leva estas duas encomendas à enfermaria e, depois, trá-los .
Depois de vistos e tratados pelo 1.º sargento “Vitaminas”, entreguei-os ao tenente e lá fui elaborar o extenso e complicado texto da participação daquela rocambolesca efeméride, que meteu vinho, toiros, arruaça e alguma pancadaria, no rescaldo.
O cartaxeiro tenente Mineiro vincava bem a sua personalidade e austeridade enquanto militar. Além de fazer por desconhecer” os seus conterrâneos que militavam na Base, era o único oficial-de-dia que, pela alvorada, ia de camarata em camarata, batendo de porta em porta, quais pancadas de Molière, a fim de acordar o pessoal; mesmo aquele que estava isento da formatura do “café”. Por razões óbvias, manda-me o decoro que não reproduza aqui as respostas emanadas do interior, mas que elas eram castiças e bastante hilariantes, lá isso eram...

Jornal de Cá - 35 - novembro 2018


Quando o Cartaxo foi Aeronautizado (III)

Naquela recruta do último trimestre de 1965, sorte teve o Avelar Marques por não ter ficado sob o jugo do cartaxeiro tenente Mineiro; o Avelar mas também os restantes conterrâneos… Estou convicto de que o dito Mineiro, militarista refinado como era, mandaria a solidariedade concelhia às malvas e ainda carregaria as costas do Avelar com mais uma ou duas pesadas armas. De qualquer modo, e para o bem comum, o tenente não fazia parte da estrutura de oficiais que administravam e ministravam aquela recruta. Numa Base Aérea com muita gente, que, em épocas de recruta, chegou a ter mais de 2000 militares, estou em crer que não havia um único que não conhecesse o tenente Mineiro.
Eu, como secretário do Gabinete da Polícia Aérea - lugar antes ocupado pelo cartaxeiro António Leal – tinha, entre muitas outras funções, a de elaborar a Escala de Serviço. Porém, em certos fins de semana, quando me dava na telha, autonomeava-me para certas patrulhas, rondas e tudo o que de mais justificasse a saída da Base, para arejar, viajar e, de quando em vez, aceitar o convite para beber um copito de água-pé na adega de um qualquer militar residente nas redondezas. Todavia, como é natural, agia com toda a serenidade, compenetrado no meu papel. Nada de procurar ou criar conflitualidades com a massa militar que desfilava por toda a Nacional1, entre a BA2, Alenquer e Vila Franca de Xira. Até um dia…
Certo domingo de verão, pelo meio da tarde, estava eu chefiando a patrulha que demandava terras de Vila Franca, quando atendi uma chamada, via rádio, emanada da BA2 pelo oficial-de-dia tenente Mineiro. Com voz fina, mas de duro militarista que se prezava ser, ordenou-me: - “Eh, pá! Vai de imediato à Picaria de Alenquer e prende-me os dois gajos, dois açorianos, que por lá andam a causar distúrbios na arena.” Havia alguns oficias e sargentos da Base que residiam em Alenquer; daí, um telefonema para a Base, para o tenente Mineiro, e Polícia Aérea em ação. Oh, diabo! Pensei eu. Logo isto tinha que acontecer comigo… Mas fui.
Era uma Picaria e peras, com bancadas e tudo. Quando assomei às trincheiras deparei-me com a triste cena de dois militares, em plena arena, por demais desfraldados, abandalhados, empoeirados e aparentando serem portadores de valente bebedeira. Mas não foi fácil deitar a mão àqueles rufias, não. O pessoal das bancadas, assim que nos avistou, deu em lançar vaias, todo o tipo de impropérios, pateada… enfim, um inferno. Mas eu, com a maior calma do mundo, tentava aliciar os soldados a virem ter connosco, a bem, porque, desse modo, nada lhes acontecia. Os fulanos, sentindo-se com as costa quentes pela assistência, também nos mimoseavam com o pior vernáculo que existia e não nos davam mão. Esgotados os argumentos, entrámos na arena e arrastámos os dois desordeiros para o jeep que, com o condutor, nos aguardava no exterior.
Dali até à Base da Ota, foi um autêntico festival. Toda a gente sabe que o linguajar dos micaelenses é muito atrevido, por isso a cada filho de fulana, duas arrochadas no lombo. E agora chegava a hora de proceder à entrega das encomendas ao tenente Mineiro.

Jornal de Cá - 34 - outubro 2018


Quando o Cartaxo foi Aeronautizado (II)
Os festejos das Sortes foram coisa efémera de dois ou três dias. A esmagadora maioria dos mancebos, depois da obrigatoriedade de se apresentarem à inspeção militar sob o jugo da Divisão Territorial, no caso de o resultado ser positivo, seriam, mais tarde, incorporados nas diversas unidades do Exército, a partir das quais tinham grande probabilidade de receberem guia-de-marcha para o dito Ultramar. Se em meados dos anos 50 o destino foi a Índia, no início de 60 – excetuando Timor - a volta era mais curta: quedava-se por África, de onde não emanavam boas notícias. Segundo o jornalista Ferreira da Costa, arauto de Salazar para África, tudo estava bem, mas o povo sabia que não era assim. Não havia contraditório, por isso emanava a voz do dono, vulgo Salazar.
Não tenho a certeza de que tivesse sido aquele o único mote a provocar a apetência da juventude do concelho pelo ramo da Força Aérea, até porque, em termos de perigosidade, havia sempre que fazer a destrinça entre Especialistas, Paraquedistas e Polícia Aérea. Num plano meramente teórico, era natural que os riscos não seriam iguais para todos. Eu nem fui um dos pioneiros, porque quando me voluntariei, em 1964, já outros, com mais uns três ou quatro anos, eram veteranos. Entre fins dos anos 50 e meados de 60, o afluxo da rapaziada do concelho na Aeronáutica era evidente.
Sem grande rigor cronológico, direi que: Vítor Colaço; José Gaia; José Augusto Valério; o Jacinto; José M. Jarego; o Sequeira; Jorge H. Ferreira e Roberto Marques (Especialistas); José Canha e Carlos Cera (Paraquedistas), formaram as primeiras vagas. Mais tarde, entre 1962 e 1964, entraram, respetivamente, António Leal e José Caria Luís, ambos na Polícia Aérea. Mas foi entre os anos de 1965 e 1967 que se registou a maior adesão conjunta no ramo. O magote entrado na Força Aérea, para fazer a recruta na BA2-Ota, foi por demais inusitado. Se não, vejamos:
Acácio; Artur Tavares; Avelar Marques; Carlos Marecos; Carlos Palmeiro; César Salgado; Domingos Jarego; Francisco Patrício; José Oliveira Santos; Ludgero Capeleiro; Sérgio Ferrão e o Veríssimo, faziam parte dos alistados nesse biénio.
Na recruta de outubro de 65, depois de distribuídos pelas diversas secções (pelotões), verifiquei, com agrado, que um deles, o Avelar, ficava a pertencer ao grupo do qual eu fora nomeado monitor. Foi bom. Era um conterrâneo. Mesmo assim, creio que foi bem mais vantajoso para ele do que para mim. Sempre que durante uma prova de crosseequipados com fardamento, botifarras e uma pesada arma em bandoleira – e ele se afadigava, lá estava o Zé Luís pronto para lhe aliviar a carga, transportando-lhe a arma. E era o Avelar avançado-centro dos juniores do S.L. e Cartaxo, senão... Mas na secção havia mais desportistas, como o Ceitil (Vilafranquense) e o campeão regional de Judo de Luan­da, o Henrique Vieira, aos quais ninguém valeu. Ainda hoje, quando me encontro com o Avelar, falamos disso e… rimos, claro. Mas deu comigo, porque sendo eu um fulano que gostava de cumprir a tropa, era, também, um tipo humano e solidário. Mas houve mais. Muito mais.

Jornal de Cá - 33 - setembro 2018


Quando o Cartaxo foi Aeronautizado (I)
Segundo penso, só preservando e revisitando o passado, se pode cimentar o futuro. Assim sendo, seria bom lembrar que: povo que não cultive as suas memórias, as suas raízes, terá maior dificuldade no augúrio de um futuro sustentado. Por isso, abordando o tema que nos traz aqui hoje, cujo título, meio esquisito, parece não ter cabimento, tem tudo a ver com a época em que o Cartaxo se submeteu à Aeronáutica Militar, ficando Aeronautizado.
Tropa é coisa desatualizada da qual, desde há algumas décadas, pouco ou nada se tem falado. Caiu em desuso. Longe vão os tempos – e ainda bem – das grandes incorporações militares, com alguns voluntários, no sentido literal do termo, e de muitos outros, a maioria, que foram “voluntários à força”. Se o lema era defender a Pátria até à última gota de sangue… Deixando para trás o que deveriam ser os mais belos anos de juventude e um início de vida profissional em fase de consolidação, era vê-los, no dia da inspeção militar – o dia das Sortes - jorrando alegria, acompanhados de acordeonista contratado, dando voltas e reviravoltas pelas ruas da terra. Em meados dos anos 50, nalguns meios, como Vale da Pinta, o grupo deslocava-se, a pé, até às Quintas dos Lameiros ou do Atravessado, a fim de se encontrar com o numeroso rancho de moçoilas que por ali labutava na agricultura. O rancho tinha direito a uma hora de sesta, mas, naquela tarde, a soneca iria ser substituída, com vantagem, pelo bailarico que os rapazes das Sortes se propuseram levar até elas. Rapiocando ao ritmo de marchinhas abrasileiradas e passodobles, todos balhavam. Até aqueles que o não sabiam e nunca se tinham agarrado a uma rapariga, mesmo às pisadelas e aos tropeções lá iam inebriando as suas almas vivendo o sonho das suas ainda curtas vidas.
Quem ficou apurado para todo o serviço militar estava radiante, feliz da vida e tinha direito a colocar, na lapela do seu primeiro fato, duas fitas: uma encarnada e outra verde. Porém, para aqueles que ficaram de espera ou foram reprovados, os primeiros exibiam uma fita amarela e outra branca, os outros, uma triste amarela como se fossem portadores de iterícia. Era uma tremenda angústia, da qual nem as famílias se alheavam, chorando pelo fracasso. Era mau sinal: ou se era raquítico e o Exército concedia-lhe mais um ano para engordar, quiçá à força de casqueiro e batatas, ou tinha qualquer outra maleita ou deficiência física que o inibia de corresponder ao perfil de um valente e garboso militar. Por isso, em vez de ir atrapalhar nas fileiras, melhor seria ficar em casa. Mas isto foi na década de 50, porque dos anos 60 em diante, de espera ninguém ficava. E o facto de se ficar livre já não seria tão mal visto assim. O pessoal, vendo no ar o espetro da mobilização e embarque para as guerras de África, já não embarcava numa de herói. Isso era mais para os filmes. Como o mundo pulava e avançava, até a malha da triagem das inspeções foi amplamente alargada. Apenas zarolhos, manetas e pernetas ficavam de fora das listas de carne para canhão; quase todos os outros, válidos e menos válidos, marcharam rapidamente e em força para terras de além.

Jornal de Cá - 32 - agosto 2018


Quando a História passou pelo Cartaxo (III)
É verdade! Foi com um longo e apertado abraço que o General Humberto Delgado correspondeu àquela grande manifestação do cartaxeiro Carlos Batista Pego, reflexo de um misto de regozijo e angústia de um homem lavado em lágrimas. Mas eu, com os meus 14 anos, é que não atingia a razão de ser daquela dramática cena perpetrada por alguém saído da multidão, que se abeirou e abraçou efusivamente o General. Porém, ainda que sem saber o porquê, também me emocionei, não deixando de verter algumas lágrimas pelo sucedido.
Curioso, perguntei a alguns dos circunstantes, pessoas mais velhas que eu, o porquê de tal manifestação, mas a verdade é que eles sabiam tanto quanto eu, que era nada. Com receio de sofrer alguma retaliação ou castigo pela demora, e sem a mercadoria para apresentar na Recauchutagem, saí apressadamente sem, no entanto, ter conhecido o ónus da questão. Mesmo assim, ainda deu para ouvir os primeiros acordes vocais do Hino Nacional entoados pelo povo.
Nessa tarde, a mando do encarregado, voltei à drogaria do Carlos Pego a fim de levantar as tais latas de tinta. Desta vez encontrei as portas do estabelecimento abertas, mas, lá dentro, atrás de um longo balcão, estava um homem abatido, pesaroso, de olhar distante. Ele, Carlos Pego, pessoa relativamente alta, esguia e dinâmica, parecia estar, naquela tarde, ausente de tudo o que o rodeava. Foi o empregado Domingos Colegas - esse eterno aprendiz de toureiro - que, em silêncio, se aprontou a servir-me a encomenda. Já no armazém, que ficava no fundo da loja e onde estávamos fora do raio da ação auditiva do patrão, pedi ao Domingos que me explicasse a cena da manhã, ao que ele, em surdina, me relatou a situação em que se encontrava o genro do Carlos Pego, preso político algures numa masmorra da PIDE, creio que para as bandas de Caxias. Seria por isso que a esperança na almejada liberdade falava mais alto.
O Cartaxo seria, também, 16 anos mais tarde, cenário da passagem de uma extensa coluna de viaturas de combate da Escola Prática de Artilharia de Santarém, que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, marchou sobre Lisboa, com a missão de ajudar a tomar pela força “O estado a que as coisas tinham chegado.” Palavras estas, entoadas pelo capitão Salgueiro Maia na preleção às sua tropas no Quartel de Santarém, pouco antes da partida rumo a Lisboa. Se a saída do Quartel se deu por volta das 03h30, então é bem provável que a passagem pela, então, vila do Cartaxo, tenha ocorrido por volta das 04h00 da madrugada.
O aparato seria grande, espetacular mesmo, mas, àquela hora, o sono profundo dos cartaxeiros era o que mais ordenava. E foi assim, meio em segredo, que uma coluna formada por 10 blindados, 12 de transporte, um jipe e mais uma viatura civil, onde viajava o capitão Salgueiro Maia, atravessava o Cartaxo a caminho da capital. O que lhes valeu – aos dorminhocos – foi o facto de os rodados serem todos de borracha, porque, imagine-se o estardalhaço em toda a vila se, acaso, em vez das maneirinhas e silenciosas rodinhas tivessem rolado altas, largas e ruidosas lagartas…
Assim, o Cartaxo também faz parte da História.

Jornal de Cá - 31 - julho 2018


Quando a História passou pelo Cartaxo (II)
Na sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando, em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato. No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as candidaturas dos independentes Dr. Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira Salazar apresentou o seu candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz. Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então nunca o sistema permitiria que aquelas eleições fossem livres. Esse golpe culminaria com a nomeação, por Salazar, do renegado ribatejano Américo Thomaz, para exercer o cargo de Presidente da República. O Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o que transcreverei noutro local - pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e testemunhos de então, que quem tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas e donativos particulares, ao contrário do representante da União Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14 anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época, trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido para o ajuntamento, na Praça 15 de Dezembro. Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso, desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade? Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho o que se passava. Este, quase em surdina, explicou-me o fenómeno. Estava por aí a chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se propunha derrubar de vez o sinistro regime salazarista.
Humberto Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi gritos de vivas e vi lágrimas em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado ao general. Porquê? Fiquei chocado e confuso.

Jornal de Cá - 30 - junho 2018


Quando a História passou pelo Cartaxo (I)
A fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4 km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote. Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por aqui, como mais à frente se revela.
A antiga Feira do Ribatejo - assim chamada antes da nova denominação de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra, um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência, era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali (e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época, circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter, salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como veio a suceder.
Naquele tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função, era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal. Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere, que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver, também não seria caso para isso.
Todavia, quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo, conforme se narrará na próxima edição.

Jornal de Cá - 29 - maio 2018


O Corpo Discente do Concelho (IV)

Na E. I. C. de Santarém, o pessoal estava bastante disperso. Com cursos e anos distin­tos, horários muito diversificados em que todos tinham que esperar até à saída do último elemento das aulas, não era fácil conjugar a saída do grupo para o Cartaxo a horas decentes. Na verdade, nos tempos da bicla, sempre havia a possibilidade de dar o salto para a santa terrinha, onde nem sempre havia muito que fazer, salvo umas passagens, rua abaixo rua acima, à cata de algumas miúdas, ou deitar o olho no café local, onde algumas estariam a ver as séries Bonanza, Dr. Kildare, o Santo, ou o Homem Invisível. Ainda nos tempos da bicla, no mês de maio, a nossa sorte eram as novenas. Em andamento de contrarrelógio, desde Santarém, sempre dava para ver as meninas à saída do evento religioso. Mas só ver, e ao longe, porque, qualquer de nós, com a farpela toda encharcada pela sudação, nem a moçoila menos prendada da terra se agradaria de tais bacanos. Porém, desde que se optou pela carripana como transporte, tudo ruiu.
Como era, então, passado o tempo de espera na cidade de Santarém? Na falta de proventos, que nos coibiam de desfrutar de outras veleidades mais profanas, valiam-nos as passagens do carismático Clementino pelo adro da Escola. O tipo, trajando de avental e pantufas, qual serviçal noturna, transmitia uma carga energética ao pessoal que desatava tudo ao piropo e à malcriadice. Também o santareno Pimenta, sempre que por ali deambulava, fazia as delícias do pagode. O fulano tinha a mania do Jiu-Jitsu. No sentido de pôr o pessoal em respeito, ameaçava-nos com um golpe de Jiu-Jitsu 47. Pelos vistos, ele teria os seus golpes todos numerados. A propósito do Pimenta, o assalto ao paquete St.ª Maria tinha ocorrido na altura. Ainda não se sabia do seu paradeiro e, a esse propósito, muito se especulava. Então, esse facto também era argumento da malta para amofinar o Pimenta, dizendo: - Ó Pimenta, tu é que tens o navio escondido debaixo da cama! Vai mas é entregar o barco ao homem! - o homem, subentendia-se, era o Salazar.
Também algumas serenatas, previamente combinadas, entre a escumalha de alunos da Escola Industrial e Comercial; do Liceu Sá da Bandei­ra e da Escola de Regentes Agrícolas, tinham lugar na velha Scalabis. Os recontros, quase sempre a partir das 22h, ti­nham lugar no jardim, em frente à Camionagem Ribatejana, ou no Campo da Feira. Sendo este último local menos vigiado pela P.S.P., havia livre-trânsito e tempo para es­murrar e ser esmurrado. Mas eles gostavam!... Todos gostavam: tanto os que assistiam, como os que davam e levavam. Tanto assim era que, amiúde, repetiam a dose.
De uma vez, a anunciada estrela da E.I.C.S. para a peleja noturna era o meu colega Pazadas. Largos ombros, arcaboiço a condizer, pernas arqueadas e com um par de manápulas que metiam respeito, foi-lhe confiada a nobre missão de pôr na ordem um tal rufia da Escola Agrícola. Nós, fiéis seguidores do Pazadas, exultávamos com o tareão infligido ao lavrador. Foi tal a surra que até foram chamar o prof. Chambel, subdiretor da E.I.C.S. para, através da sua veia diplomática, pôr cobro ao descalabro.

Jornal de Cá - 28 - abril 2018


O Corpo Discente do Concelho (III)

Avizinhava-se o ano letivo de 1962-1963. Nos anos anteriores, as deslocações noturnas dos discentes, em bicicleta, para Santarém, de ida e volta, não tinham sido fáceis. Duran­te os meses de invernia, por muito querer e garra juvenil que se pudesse alardear, o corpo não era de ferro. Sobretudo para quem, como eu, já tinha completado uma jornada de trabalho duro e mais uns 40 kms de bicicleta, ainda ter que enfrentar mais outros 40, em saga noturna, espécie de duplicado, a tarefa não era fácil. Urgia, pois, dar a volta à situação, concebendo um tipo de transporte alternativo. Formou-se, então, uma comissão ad-hoc cujo propósito seria entabular negociações com as diversas empresas de camionagem, daquelas que demandavam o Cartaxo, a fim de se conseguir, a preços módicos, um autocarro que nos garantisse alguma comodidade e, quiçá, mais segurança.
Após algumas démarches, e com a adjudicação a favor do “Vinagre, Lda”, entrou em funções um miniautocarro, creio que de 25 lugares se‑ntados, mas cujos assentos muito raramente sentiram o peso e o contacto do traseiro de certos energúmenos. É verdade. Sentados, era coisa que quase nunca acontecia naquela amálgama de gente mal formada e pior comportada, salvo raras exceções como, por exemplo, as duas meninas que tiveram a desdita de fazer parte dos passageiros daquela carripana pejada de tal deprimente turba. As alunas, colegas de viagem, Lurdes Pina e Alice Gaspar, devem ter-se arre­pendido mil vezes da hora em que decidiram anuir a tais companhias. As moças, a par do motorista Sr. Joaquim, eram das poucas pessoas bem comportadas dentro daquele aca­nhado meio de transporte. Que gente tão insubordinada e tão mal formada que lhes havia de sair na rifa. Desde cantilenas da treta, anedotas a roçar a boçalidade, pulos e urros, de tudo se viu. A Lurdes, sempre que passava por algum de nós nas ruas do Cartaxo, baixa­va a cabeça e passava-se para o passeio oposto. E eram as meninas filhas de soldados da GNR, senão... pior seria.
Além dos nomes já elencados na pretérita publicação do JdC, daquele grupo que se fazia transportar em bicicleta e que neste ano optara pela carripana, entraram, além da citadas Lurdes e Alice, o Rui Martins, o Tibério, o Galinha, o Rogério sapateiro, o An­tónio J. Baeta, o Zé dos Amiais, o Domingos Caramelo, o Ludgero Capeleiro, o Ângelo Pego e o Acácio. Mais um, menos um, éramos perto de um quarteirão de jovens, pela medida antiga.
Quando se muda de sistema nem sempre se colhem benefícios em todos os seus parâmetros. Senão, vejamos: o miniautocarro saía do Cartaxo por volta das 19h15, mas a par­tida de Santarém era às 23h00, o que condicionava sobremaneira o modus vivendi daquela juventude. De facto, no que concernia a eventos em sociedade, o leque era bastante limitado. A bola e o “Bonanza” eram ao domingo, mas, fora isso, além de um ou outro programa televisivo em que metia película com porrada de criar bicho, ou aquele bailari­co que os chicos-espertos da aldeia tinham programado para o sábado, com início às 20h00, o que, por razões óbvias, nos tinha sido vedado. Mas havia mais, como se comprova no capº IV.

Jornal de Cá - 27 - março 2018


O Corpo Discente do Concelho (II)
Mas como, em termos de bicicletas, a rapaziada não era muito apologista de cicloturismo, e recorrendo ao sangue na guelra próprio daquelas idades, quase todas as noites havia refregas, a bom pedalar, entre o Cartaxo e Santarém.
Certa tarde de julho, quando o grupo se encontrava em formação, na Praça 15 de Dezembro, junto à praça de táxis, a fim de rumar a Santarém, passaram pela zona, mesmo em frente aos nossos narizes, em bom ritmo, dois ciclistas do Águias de Alpiarça, que, pelo que se supunha, andavam a treinar, a fazer preparação para a Volta a Portugal, prova que se avizinhava. Um era o “independente” Amílcar Mateus, o outro, mais novo, ainda “amador”, tinha o nome ou apelido de Jacinto. Os dois ciclistas desceram a rampa do Augusto Ferreira, deram a volta pelo Cruz & Jarego, subiram pela EN 3, e voltaram a aparecer na Praça 15 de Dezembro, onde nós, de combinação feita, os aguardávamos. Julgo que os dois terão reparado no nosso grupo, já que, com toda aquela parafernália de bicicletas ali expostas, difícil era passarmos despercebidos. Vimos que o duo alpiarcenses tomara o rumo de Santarém, agora, era a nossa vez de o fazer. Por isso, seguindo-lhe a peugada, quando chegámos à Churrasqueira Ribatejana, já íamos colados na sua roda. Naquele momento, fomos recebidos com desdém, acompanhado de sorrisos cínicos, como quem diz: - Esperem, seus nabos, que já vão ver como é que se pedala!… Mas isso, a nós, putos imberbes mas vaidosos, não nos atormentava.
Na subida de Vila Chã, com um primeiro safanão, o nosso grupo abanou e, a partir daí, apenas quatro de nós os acompanhavam. Depois, no Alto do Vale, a mais um esticão, respondemos com a nossa união. Daqui em diante, embora em bom ritmo, tudo seguia sereno. Porém, passando pela Quinta do Líquis e entrando nas Padeiras, assim que a estrada começou a inclinar, o Amílcar deu uma forte sapatada, mas o primeiro a rebentar foi o seu benjamim Jacinto. A meio da subida já só dois de nós prestavam guarda-de-honra ao primeiro. No fim, em frente ao Posto da PVT, o sprint final teve três protagonistas, mas o Jacinto, tendo-se atrasado um pouco, já não assistiu à nossa chegada. Para nada! Peneiras da juventude…Não tivéssemos ilusões, porque pedalar 13 kms não se comparava a uma etapa em linha, de cem ou mais kms, mas lá que tínhamos a mania, isso tínhamos.
Lembro-me de muitos dos que compunham aquela comitiva. Dois eram pontevelenses, o António Silvestre e o Vasco Pego. O primeiro, talvez por ter mais arcaboiço, também tinha a bicicleta mais pesada de todas, mas enquanto o Vasco já vinha a pedalar desde Pontével, o primeiro, como era empregado do Dr. Rocha Homem, partia do Cartaxo. Depois, de Vale da Pinta, vinha eu, o Humberto e o Luís Gaia. Do Cartaxo, eram o Florindo, o Zé Octávio, o Fernando Mil-Homens, o Rogério Fanã e o Jorge Xavier. Depois, mais à frente, no Vale de Santarém, tendo nós quase meio caminho andado, aguardavam-nos os Isenteiros Mesquita e Francisco Vassalo. O nosso colega Rui Fonseca teve o privilégio de se fazer transportar na sua “Famel Foguete”. Era bem mais fácil. E para o ano, como seria?

Jornal de Cá - 26 - fevereiro 2018


O Corpo Discente do Concelho (I)
Estudar? Estudar para quê? Era esta a questão que, nas décadas de 50-60, aflorava, em permanência, nos vários círculos do concelho. Se havia algumas pessoas que, inconscientes pelo seu desconhecimento e alguma dose de sensatez, se colocavam à margem desta questão, deixando o tema aos entendidos, muitos eram aqueles que, com ou sem conhecimento de causa, faziam questão de opinar acerca da mesma. Enquanto uns defendiam que o ato da escolha de enveredar pela via estudantil era útil e benéfica, muitos outros argumentavam que isso do estudar era só para ricos e vaidosos. Argumentos eram os mais variados: enquanto uns quantos avarentos diziam que, “hoje em dia, com tanta gente a estudar, não vai haver colocação compatível para todos”, também havia quem advogasse que sim, senhores, o seu filho, apesar de ter que trabalhar de dia para ajudar às despesas da casa, também ele entraria na vida académica, ainda que fosse no ensino noturno. É verdade que a idade condicionava esta modalidade, já que as matrículas estavam vedadas a menores de 14 anos, mas se o rapaz, a trabalhar desde os 10 aos, já tinha dado provas de possuir arcaboiço, tarimba e espírito de sacrifício, também estaria apto a enfrentar a vida académica noturna, acumulando-a com a de pedreiro, aprendiz de oficina ou balconista.
Se os estudantes diurnos do Externato Marcelino Mesquita, do Liceu Sá da Bandeira e da E I C de Santarém, já estariam, de certo modo, encaminhados, os candidatos sobrantes também tinham que fazer pela vida. Não adiantava vociferar, lamentando a falta de posses ou qualquer outro óbice e, muito menos, sentirem-se marginalizados. E, no sentido de contrariar aquele quadro, foram aparecendo, aos poucos, uns voluntariosos, qual Mem Ramires, decididos a avançar sobre Santarém.
Na maioria eram caloiros, como eu. E enquanto um grupo se deslocava por meio das carreiras de autocarro, outro, achando que essa modalidade era incomportável para as suas posses, muniu-se de bicicletas a pedal e vai disto: Cartaxo-Santarém-Cartaxo. Chovesse, trovejasse ou geasse, os horários das aulas eram para cumprir. Havia cheias no Tejo? As águas, submergindo as vinhas na zona da Ponte da Asseca, já haviam subido meio metro acima do dorso da estrada de asfalto? E, isso, que tinha?!... Não havia um muro, ao longo do qual se podia fazer equilibrismo com a bicicleta às costas? Então, era mesmo esse o caminho. Faltar às aulas é que não.
Éramos uns 12 ciclistas, sendo 2 de Pontével, 3 de Vale da Pinta e 7 do Cartaxo. Pelo caminho, íamos arrebanhando mais 2 em Vila Chã de Ourique e outros 2 no Vale de Santarém. Havia, no entanto, 1 que possuía motorizada. Como naquelas idades (14-18) todos têm a mania da competitividade, senão de superioridade sobre os demais, as idas e vindas eram feitas em pedalada a alta rotação. O protótipo das máquinas diferia bastante: enquanto umas não passavam de meras pasteleiras, com roda 26, uma só pedaleira e carreto 18, pesando para cima de 20 kg, outras, muito sofisticadas, que não pesariam mais de 8 kg, tinham roda 28, pedaleira dupla e carretos entre o 13 e o 25, autênticas penas.