sábado, 13 de abril de 2019
terça-feira, 15 de janeiro de 2019
Jornal de Cá - 37 - janeiro 2019
A
cruzada concelhia em Marrocos (I)
À
semelhança do fluxo de jovens
do
concelho, saído
da terra e entrado na Força Aérea nos anos 60, também nas décadas
de 70 e 80 se verificou o êxodo de algumas franjas da população,
só que, desta vez, para o estrangeiro, mais
propriamente para Marrocos.
Esporadicamente,
aqui e ali, de modo individual, sempre houve alguém a sair para
tentar a sorte no estrangeiro, mas em grupo e
a termo era
coisa rara.
Tudo
começou em 1976, quando, após
concurso internacional,
foi
adjudicada à empresa Construções Técnicas, S.A.R.L, a construção
da Fábrica de Cimento de Oujda – Cimenterie
de l’Oriental - em
Marrocos. Sendo
eu empregado da dita empresa há
10 anos, fui
convidado
a fazer parte da equipa técnica destacada
para
o dito empreendimento, onde
cheguei em
outubro de 1976.
No
que concernia a mão-de-obra, o rácio inicial
acordado
entre o governo marroquino,
o
projetista/fiscalização da
Oscar
Faber & Partners UK e
as C.T., era de 1 para 5. Seja: 1 operário português para cada 5
marroquinos. Ora, sem qualquer espécie de chauvinismo, diria
que aquela
relação era mais romântica do que real. Na
verdade, numa obra de grande envergadura, com prazos fixos, num Plano
de Trabalhos relativamente apertado, em
cujo planeamento se estimava
que a carga
de mão-de-obra
entre artífices e auxiliares atingisse um total de 1500, seria
de todo impensável contarmos com o contributo de
cerca
de 1250 nativos.
Pelo
que se viu logo no início, a esmagadora maioria dos candidatos
chegados à obra era
composta
por
pastores, tosquiadores, agricultores e
contrabandistas,
mas tudo menos daquilo de
que
necessitávamos, que era gente da
construção civil, inclusive
mecânicos,
soldadores,
serralheiros
civis,
manobradores
e condutores. Se
o cenário inicial
fosse mantido, estou
em crer que ainda hoje a dita não tinha sido inaugurada. Negociações
alicerçadas em tal
facto, levaram a que, primeiro com um rácio de 1:3 e, mais tarde, de
1:2, o número de portugueses aumentasse exponencialmente em poucos
meses.
Mas
a tarefa de angariação de mão-de-obra portuguesa não se afigurava
tão fácil como a princípio se supunha. Por isso, no sentido de
ajudar a amenizar tal lacuna, mesmo não sendo minhas tais
atribuições, tentei convencer
alguns conterrâneos a marchar até ao
Magreb,
indicando-os
aos Serviços de Recrutamento da empresa em
Lisboa.
E foi assim que, de
modo faseado,
foram surgindo alguns valedapintenses por terras de
Hassan II. Mas
mais e mais portugueses, das mais variadas latitudes, chegavam todas
as semanas a Oujda.
Perfilhando
a genética lusa,
a adaptação de todos eles a esta zona oriental de Marrocos foi
fácil e rápida. O alojamento era bom. Comes e bebes havia com
abundância
no refeitório da obra; a
ementa, bastante variada, até metia carne de porco, vinho e
bagaceira,
tudo à fartura, ainda que isso contrariasse a religião muçulmana,
mas,
ali, quem mandava eram os tugas.
Aos
fins de semana era ver os
autocarros,
cedidos pela empresa, a transportar toda aquela malta para
a cidade de Oujda, no
inverno, e Praia de Saidia, no verão. Era
uma boa maneira de desanuviar o corpo e a mente, como se verá.
Jornal de Cá - 36 - dezembro 2018
O
Cartaxo Aeronautizado (IV)
Terminada
que estava a primeira fase da espinhosa missão da Polícia Aérea na
Picaria
de Alenquer, e já de volta à Base da Ota na posse das duas
encomendas
açorianas resgatadas da arena, chegava a hora de proceder à
entrega das
ditas ao oficial-de-dia
tenente Mineiro. Dos
seis ocupantes do jipe – eu, dois soldados da
ronda,
o condutor e os
dois bacanos açorianos – certamente que ninguém
estaria a pensar em
ser recebido com pompa e circunstância por parte do austero oficial;
muito menos os prevaricadores que, desfraldados,
empoeirados e, por
demais, doridos, mercê dos rebolões sofridos dentro da arena,
agravados pelos solavancos
que
apanharam no
jipe durante a viagem, achariam que já chegava de festança.
Depois
de um aturado trabalho de sapa iniciado no redondel da Picaria,
correndo o risco de sermos dizimados pela aficionada e
enfurecida
populaça,
o mínimo que se podia esperar do tenente seria, não um louvor, mas
uma mera palavra de apreço pelo
sucesso
da missão
levada a cabo. Porém, o oficial-de-dia, estando nos seus dias –
sempre
mal-humorado -
não defraudou as minhas expectativas.
A
sua
curta
receção, na
presença dos prevaricadores,
resumiu-se a isto:
-
Ora
bem! Com que então, estes dois javardos resolveram
estragar-nos o domingo,
não é assim? - e sem se deter - Agora, vão dormir aqui uns dias
(na Casa da Guarda) e veremos se ainda não terão que ir estagiar
uns tempos para Elvas. O
nosso cabo vai tratar
de fazer a participação desta ocorrência, com todos os detalhes.
Nesse
momento, um dos soldados da Picaria resolveu
mostrar as costas ao tenente, alegando ter sido agredido nas pernas e
no costado durante a atribulada viagem, tendo eu contraposto,
argumentando que o resultado de tais mazelas se devia,
principalmente, às marradas das vacas durante a atuação
do
duo na
faena.
Seria por demais evidente que alguns solavancos
apanhados no percurso entre Alenquer e a Base nunca se manifestariam
com tal amplitude. Por certo, pensaria o bacano que, com tal
argumento, iria ser louvado pelo espírito de sacrifício ou, então,
por bravura de
soldado,
tal como a
bravura das reses
que lhes aqueceram
os
corpos.
De
volta ao convívio,
e após ter analisado o mapa
lombar de
ambos, diz-me
o tenente Mineiro:
-
Leva
estas duas encomendas
à enfermaria
e,
depois, trá-los cá.
Depois
de vistos e tratados pelo 1.º sargento “Vitaminas”, entreguei-os
ao tenente e
lá fui
elaborar
o extenso e complicado texto da participação daquela rocambolesca
efeméride,
que
meteu vinho, toiros, arruaça e alguma pancadaria, no
rescaldo.
O
cartaxeiro
tenente
Mineiro vincava bem a sua personalidade e austeridade enquanto
militar. Além de fazer
por “desconhecer”
os seus conterrâneos que militavam na Base, era o único
oficial-de-dia que, pela
alvorada,
ia de camarata em camarata, batendo de porta em porta, quais
pancadas de Molière, a
fim de acordar
o
pessoal; mesmo
aquele que estava isento da
formatura do “café”. Por
razões óbvias, manda-me
o decoro que
não
reproduza
aqui as respostas emanadas do interior, mas que elas eram castiças e
bastante hilariantes, lá isso eram...
Jornal de Cá - 35 - novembro 2018
Quando
o Cartaxo foi Aeronautizado (III)
Naquela
recruta do último trimestre de 1965, sorte teve o Avelar Marques
por não ter ficado sob o jugo do cartaxeiro tenente Mineiro; o
Avelar mas também os restantes conterrâneos… Estou convicto de
que o dito Mineiro, militarista refinado como era, mandaria a
solidariedade concelhia às malvas e ainda carregaria as
costas do Avelar com mais uma ou duas pesadas armas. De qualquer
modo, e para o bem comum, o tenente não fazia parte da estrutura de
oficiais que administravam e ministravam aquela recruta. Numa Base
Aérea com muita gente, que, em épocas de recruta, chegou a ter mais
de 2000 militares, estou em crer que não havia um único que não
conhecesse o tenente Mineiro.
Eu,
como secretário do Gabinete da Polícia Aérea - lugar antes ocupado
pelo cartaxeiro António Leal – tinha, entre muitas outras funções,
a de elaborar a Escala de Serviço. Porém, em certos fins de semana,
quando me dava na telha, autonomeava-me para certas
patrulhas, rondas e tudo o que de mais justificasse a saída da Base,
para arejar, viajar e, de quando em vez, aceitar o convite para beber
um copito de água-pé na adega de um qualquer militar residente nas
redondezas. Todavia, como é natural, agia com toda a serenidade,
compenetrado no meu papel. Nada de procurar ou criar
conflitualidades com a massa militar que desfilava por toda a
Nacional1, entre a BA2, Alenquer e Vila Franca de Xira. Até um dia…
Certo
domingo de verão, pelo meio da tarde, estava eu chefiando a patrulha
que demandava terras de Vila Franca, quando atendi uma chamada, via
rádio, emanada da BA2 pelo oficial-de-dia tenente Mineiro. Com voz
fina, mas de duro militarista que se prezava ser, ordenou-me: - “Eh,
pá! Vai de imediato à Picaria de Alenquer e prende-me os dois
gajos, dois açorianos, que por lá andam a causar distúrbios na
arena.” Havia alguns oficias e sargentos da Base que residiam em
Alenquer; daí, um telefonema para a Base, para o tenente Mineiro, e
Polícia Aérea em ação. Oh, diabo! Pensei eu. Logo isto tinha que
acontecer comigo… Mas fui.
Era
uma Picaria e peras, com bancadas e tudo. Quando assomei às
trincheiras deparei-me com a triste cena de dois militares, em plena
arena, por demais desfraldados, abandalhados, empoeirados e
aparentando serem portadores de valente bebedeira. Mas não foi
fácil deitar a mão àqueles rufias, não. O pessoal das bancadas,
assim que nos avistou, deu em lançar vaias, todo o tipo de
impropérios, pateada… enfim, um inferno. Mas eu, com a maior calma
do mundo, tentava aliciar os soldados a virem ter connosco, a bem,
porque, desse modo, nada lhes acontecia. Os fulanos, sentindo-se com
as costa quentes pela assistência, também nos mimoseavam com
o pior vernáculo que existia e não nos davam mão.
Esgotados os argumentos,
entrámos na arena e arrastámos os dois desordeiros para o jeep
que, com o condutor, nos aguardava no exterior.
Dali
até à Base da Ota, foi um autêntico festival. Toda a gente sabe
que o linguajar dos micaelenses é muito atrevido, por isso a cada
filho de fulana, duas
arrochadas no lombo. E
agora chegava a hora
de proceder à entrega das
encomendas ao
tenente Mineiro.
Jornal de Cá - 34 - outubro 2018
Quando
o Cartaxo foi Aeronautizado (II)
Os
festejos das Sortes foram coisa efémera de dois ou três
dias. A esmagadora maioria dos mancebos, depois da obrigatoriedade de
se apresentarem à inspeção militar sob o jugo da Divisão
Territorial, no caso de o resultado ser positivo, seriam, mais tarde,
incorporados nas diversas unidades do Exército, a partir das quais
tinham grande probabilidade de receberem guia-de-marcha para o dito
Ultramar. Se em meados dos anos 50 o destino foi a Índia, no início
de 60 – excetuando Timor - a volta era mais curta: quedava-se por
África, de onde não emanavam boas notícias. Segundo o jornalista
Ferreira da Costa, arauto de Salazar para África, tudo estava bem,
mas o povo sabia que não era assim. Não havia contraditório, por
isso emanava a voz do dono, vulgo Salazar.
Não
tenho a certeza de que tivesse sido aquele o único mote a provocar a
apetência da juventude do concelho pelo ramo da Força Aérea, até
porque, em termos de perigosidade, havia sempre que fazer a destrinça
entre Especialistas, Paraquedistas e Polícia Aérea. Num plano
meramente teórico, era natural que os riscos não seriam iguais para
todos. Eu nem fui um dos pioneiros, porque quando me voluntariei, em
1964, já outros, com mais uns três ou quatro anos, eram veteranos.
Entre fins dos anos 50 e meados de 60, o afluxo da rapaziada do
concelho na Aeronáutica era evidente.
Sem
grande rigor cronológico, direi que: Vítor Colaço; José Gaia;
José Augusto Valério; o Jacinto; José M. Jarego; o Sequeira; Jorge
H. Ferreira e Roberto Marques (Especialistas); José Canha e Carlos
Cera (Paraquedistas), formaram as primeiras vagas. Mais tarde, entre
1962 e 1964, entraram, respetivamente, António Leal e José Caria
Luís, ambos na Polícia Aérea. Mas foi entre os anos de 1965 e
1967 que se registou a maior adesão conjunta no ramo. O magote
entrado na Força Aérea, para fazer a recruta na BA2-Ota, foi por
demais inusitado. Se não, vejamos:
Acácio;
Artur Tavares; Avelar Marques; Carlos Marecos; Carlos Palmeiro; César
Salgado; Domingos Jarego; Francisco Patrício; José Oliveira Santos;
Ludgero Capeleiro; Sérgio Ferrão e o Veríssimo, faziam parte dos
alistados nesse biénio.
Na
recruta de outubro de 65, depois de distribuídos pelas diversas
secções (pelotões), verifiquei, com agrado, que um deles, o
Avelar, ficava a pertencer ao grupo do qual eu fora nomeado monitor.
Foi bom. Era um conterrâneo. Mesmo assim, creio que foi bem mais
vantajoso para ele do que para mim. Sempre que durante uma prova de
crosse – equipados
com fardamento, botifarras e uma pesada arma em
bandoleira – e ele se afadigava, lá estava o Zé Luís pronto para
lhe aliviar a carga, transportando-lhe a arma. E era o Avelar
avançado-centro dos juniores do S.L. e Cartaxo, senão... Mas na
secção havia mais desportistas, como o Ceitil (Vilafranquense) e o
campeão regional de Judo de Luanda, o Henrique Vieira, aos
quais ninguém valeu. Ainda hoje, quando me encontro com o Avelar,
falamos disso e… rimos, claro. Mas deu comigo, porque sendo eu um
fulano que gostava de cumprir a tropa, era, também, um tipo humano e
solidário. Mas houve mais. Muito mais.
Jornal de Cá - 33 - setembro 2018
Quando
o Cartaxo foi Aeronautizado (I)
Segundo
penso, só preservando e revisitando o passado, se pode cimentar o
futuro. Assim sendo, seria bom lembrar que: povo que não cultive as
suas memórias, as suas raízes, terá maior dificuldade no augúrio
de um futuro sustentado. Por isso, abordando o tema que nos traz aqui
hoje, cujo título, meio esquisito, parece não ter cabimento, tem
tudo a ver com a época em que o Cartaxo se submeteu à Aeronáutica
Militar, ficando Aeronautizado.
Tropa
é coisa desatualizada da qual, desde há algumas décadas, pouco ou
nada se tem falado. Caiu em desuso. Longe vão os tempos – e ainda
bem – das grandes incorporações militares, com alguns
voluntários, no sentido literal do termo, e de muitos outros, a
maioria, que foram “voluntários à força”. Se o lema era
defender a Pátria até à última gota de sangue… Deixando para
trás o que deveriam ser os mais belos anos de juventude e um início
de vida profissional em fase de consolidação, era vê-los, no dia
da inspeção militar – o dia das Sortes - jorrando alegria,
acompanhados de acordeonista contratado, dando voltas e reviravoltas
pelas ruas da terra. Em meados dos anos 50, nalguns meios, como Vale
da Pinta, o grupo deslocava-se, a pé, até às Quintas dos Lameiros
ou do Atravessado, a fim de se encontrar com o numeroso rancho de
moçoilas que por ali labutava na agricultura. O rancho tinha direito
a uma hora de sesta, mas, naquela tarde, a soneca iria ser
substituída, com vantagem, pelo bailarico que os rapazes das Sortes
se propuseram levar até elas. Rapiocando ao ritmo de marchinhas
abrasileiradas e passodobles, todos balhavam. Até aqueles que
o não sabiam e nunca se tinham agarrado a uma rapariga, mesmo às
pisadelas e aos tropeções lá iam inebriando as suas almas vivendo
o sonho das suas ainda curtas vidas.
Quem
ficou apurado para todo o serviço militar estava radiante, feliz da
vida e tinha direito a colocar, na lapela do seu primeiro fato, duas
fitas: uma encarnada e outra verde. Porém, para aqueles que ficaram
de espera ou foram reprovados, os primeiros exibiam uma fita
amarela e outra branca, os outros, uma triste amarela como se fossem
portadores de iterícia. Era uma tremenda angústia, da qual nem as
famílias se alheavam, chorando pelo fracasso. Era mau sinal: ou se
era raquítico e o Exército concedia-lhe mais um ano para engordar,
quiçá à força de casqueiro e batatas, ou tinha qualquer outra
maleita ou deficiência física que o inibia de corresponder ao
perfil de um valente e garboso militar. Por isso, em vez de ir
atrapalhar nas fileiras, melhor seria ficar em casa. Mas isto foi na
década de 50, porque dos anos 60 em diante, de espera ninguém
ficava. E o facto de se ficar livre já não seria tão mal visto
assim. O pessoal, vendo no ar o espetro da mobilização e embarque
para as guerras de África, já não embarcava numa de herói. Isso
era mais para os filmes. Como o mundo pulava e avançava,
até a malha da triagem das inspeções foi amplamente alargada.
Apenas zarolhos, manetas e pernetas ficavam de fora das listas de
carne para canhão; quase todos os outros, válidos e menos
válidos, marcharam rapidamente e em força para terras de
além.
Jornal de Cá - 32 - agosto 2018
Quando
a História passou pelo Cartaxo (III)
É
verdade! Foi
com um longo e apertado abraço que
o General Humberto Delgado correspondeu àquela
grande manifestação do
cartaxeiro
Carlos Batista Pego, reflexo
de um misto de regozijo e angústia de um homem lavado em lágrimas.
Mas
eu, com os meus 14 anos, é que não atingia a razão de ser daquela
dramática cena perpetrada
por alguém
saído da
multidão, que
se
abeirou e abraçou efusivamente o General. Porém,
ainda que sem saber o
porquê,
também
me emocionei, não
deixando
de
verter algumas lágrimas pelo sucedido.
Curioso,
perguntei a alguns dos circunstantes, pessoas mais velhas que eu, o
porquê
de tal manifestação, mas a verdade é que eles sabiam tanto quanto
eu, que era nada. Com
receio de sofrer alguma retaliação ou castigo pela demora, e
sem a mercadoria para apresentar na Recauchutagem, saí
apressadamente sem, no entanto, ter
conhecido o ónus da questão. Mesmo
assim, ainda deu para ouvir os primeiros acordes vocais do Hino
Nacional entoados pelo povo.
Nessa
tarde, a
mando do encarregado, voltei
à drogaria
do Carlos Pego
a
fim de levantar as tais latas de tinta. Desta vez encontrei as portas
do estabelecimento abertas, mas, lá dentro, atrás de um longo
balcão, estava um homem abatido, pesaroso,
de
olhar distante. Ele,
Carlos Pego,
pessoa
relativamente alta, esguia e dinâmica, parecia estar, naquela tarde,
ausente
de
tudo o que o rodeava. Foi o empregado Domingos Colegas - esse
eterno aprendiz de toureiro - que,
em silêncio, se aprontou a servir-me a encomenda. Já
no armazém, que ficava no fundo da loja e onde estávamos fora do
raio da
ação auditiva
do
patrão, pedi ao Domingos que me explicasse a cena da manhã, ao que
ele, em surdina, me relatou a situação em que se encontrava o genro
do Carlos Pego, preso político algures numa masmorra da PIDE, creio
que para as bandas de Caxias. Seria
por isso que a esperança na almejada liberdade falava mais alto.
O
Cartaxo seria, também, 16 anos mais tarde, cenário da passagem de
uma extensa coluna de viaturas de combate da
Escola Prática de
Artilharia de
Santarém, que, na madrugada de 25 de Abril de 1974, marchou sobre
Lisboa, com a missão de ajudar a tomar pela força “O
estado a que as coisas tinham chegado.” Palavras
estas, entoadas pelo capitão Salgueiro Maia na preleção às sua
tropas no Quartel de Santarém, pouco antes da partida rumo a Lisboa.
Se
a saída do Quartel se deu por volta das 03h30, então é bem
provável que a
passagem pela, então, vila do Cartaxo, tenha
ocorrido por volta das
04h00
da madrugada.
O
aparato seria grande, espetacular mesmo, mas, àquela hora, o sono
profundo dos cartaxeiros era o que mais ordenava. E foi assim, meio
em segredo, que uma coluna formada por 10 blindados, 12 de
transporte, um jipe e mais uma viatura civil, onde viajava o capitão
Salgueiro Maia, atravessava o Cartaxo a caminho da capital. O que
lhes valeu – aos dorminhocos – foi o facto de os rodados serem
todos de borracha, porque, imagine-se o estardalhaço em
toda a vila se, acaso,
em vez das maneirinhas
e silenciosas rodinhas
tivessem
rolado altas, largas e ruidosas lagartas…
Assim,
o Cartaxo também faz parte da História.
Jornal de Cá - 31 - julho 2018
Quando a História passou
pelo Cartaxo (II)
Na
sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter
protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando,
em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em
conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato.
No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar
convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as
candidaturas dos independentes
Dr.
Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira
Salazar apresentou o seu
candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz.
Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas
eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco
e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então
nunca o sistema permitiria que
aquelas eleições fossem
livres. Esse golpe culminaria
com a nomeação, por Salazar, do renegado
ribatejano Américo Thomaz,
para exercer o cargo de
Presidente da República. O
Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser
burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante
uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o
que transcreverei noutro local -
pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e
testemunhos de então, que quem
tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas
eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos
independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas
e donativos particulares, ao contrário do representante da União
Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto
é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins
de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas
zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi
assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a
fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14
anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época,
trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir
comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com
o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido
para o ajuntamento, na Praça
15 de Dezembro.
Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca
permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso,
desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além
do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem
eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão
é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade?
Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho
o que se passava. Este,
quase em surdina, explicou-me
o fenómeno. Estava por aí a
chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se
propunha derrubar de vez o
sinistro regime
salazarista.
Humberto
Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi
gritos de vivas e vi lágrimas
em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado
ao general. Porquê? Fiquei
chocado e confuso.
Jornal de Cá - 30 - junho 2018
Quando
a História passou pelo Cartaxo (I)
A
fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá
visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o
concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como
o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também
Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro
Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista
Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou
uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador
Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo
figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do
Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do
Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4
km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote.
Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por
aqui, como mais à frente se revela.
A
antiga Feira do Ribatejo - assim chamada antes da nova denominação
de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra,
um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no
aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras
de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência,
era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali
(e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não
habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha
Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo
através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até
porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e
Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer
golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do
Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época,
circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que
provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter,
salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como
veio a suceder.
Naquele
tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do
Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem
escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função,
era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal.
Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à
presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com
passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da
nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus
Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere,
que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A
manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo
efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos
Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do
Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver,
também não seria caso para isso.
Todavia,
quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo,
conforme se narrará na próxima edição.
Jornal de Cá - 29 - maio 2018
O
Corpo Discente do Concelho (IV)
Na E. I. C. de Santarém, o pessoal
estava bastante disperso. Com cursos e anos distintos, horários
muito diversificados em que todos tinham que esperar até à saída
do último elemento das aulas, não era fácil conjugar a saída do
grupo para o Cartaxo a horas decentes. Na verdade, nos
tempos da bicla, sempre havia a possibilidade de dar o salto
para a santa terrinha, onde nem sempre havia muito que fazer, salvo
umas passagens, rua abaixo rua acima, à cata de algumas miúdas, ou
deitar o olho no café local, onde algumas estariam a ver as
séries Bonanza, Dr. Kildare, o Santo, ou o Homem
Invisível. Ainda nos tempos da
bicla, no
mês de maio,
a nossa sorte eram as novenas. Em andamento de contrarrelógio, desde
Santarém, sempre dava para
ver as meninas à saída do
evento religioso. Mas só
ver, e ao longe, porque,
qualquer de nós,
com a farpela toda encharcada pela
sudação,
nem a moçoila menos
prendada da terra se
agradaria de tais bacanos.
Porém, desde que se optou
pela carripana como transporte, tudo ruiu.
Como
era, então, passado o tempo de espera na cidade de Santarém? Na
falta de proventos, que nos
coibiam de desfrutar
de outras veleidades mais
profanas, valiam-nos
as passagens do carismático
Clementino pelo adro da
Escola. O tipo, trajando de
avental e pantufas, qual serviçal noturna, transmitia uma carga
energética ao pessoal que desatava tudo ao piropo e à malcriadice.
Também o santareno Pimenta, sempre que por ali deambulava, fazia as
delícias do pagode. O fulano
tinha a mania do Jiu-Jitsu.
No sentido de pôr o pessoal em respeito, ameaçava-nos com um golpe
de Jiu-Jitsu 47. Pelos vistos, ele
teria os seus golpes todos numerados. A
propósito do Pimenta, o assalto ao paquete St.ª Maria tinha
ocorrido na altura. Ainda não se sabia do seu paradeiro e,
a esse propósito, muito se
especulava. Então, esse facto também era argumento da malta para
amofinar o Pimenta, dizendo: - Ó Pimenta, tu é que tens o navio
escondido debaixo da cama! Vai
mas é entregar o barco ao
homem! - o homem, subentendia-se, era o Salazar.
Também algumas serenatas,
previamente combinadas, entre a escumalha de alunos da
Escola Industrial e Comercial; do Liceu Sá da Bandeira e da
Escola de Regentes Agrícolas, tinham lugar na velha Scalabis. Os
recontros, quase sempre a partir das 22h, tinham lugar no
jardim, em frente à Camionagem Ribatejana, ou no Campo da Feira.
Sendo este último local menos vigiado pela P.S.P., havia
livre-trânsito e tempo para esmurrar e ser esmurrado. Mas eles
gostavam!... Todos gostavam: tanto os que assistiam, como os que
davam e levavam. Tanto assim era que, amiúde, repetiam a dose.
De uma vez, a anunciada estrela da
E.I.C.S. para a peleja noturna era o meu colega Pazadas. Largos
ombros, arcaboiço a condizer, pernas arqueadas e com um par de
manápulas que metiam respeito, foi-lhe confiada a nobre missão de
pôr na ordem um tal rufia da Escola Agrícola. Nós, fiéis
seguidores do Pazadas, exultávamos com o tareão infligido ao
lavrador. Foi tal a surra que até foram chamar o prof.
Chambel, subdiretor da E.I.C.S. para, através da sua veia
diplomática, pôr cobro ao descalabro.
Jornal de Cá - 28 - abril 2018
O
Corpo Discente do Concelho (III)
Avizinhava-se o ano
letivo de 1962-1963.
Nos anos anteriores, as
deslocações noturnas
dos discentes, em
bicicleta, para Santarém,
de ida e volta, não tinham sido fáceis. Durante
os meses de invernia, por muito
querer e garra juvenil que se pudesse alardear,
o corpo não era de ferro. Sobretudo para quem, como eu, já tinha
completado uma jornada de trabalho duro e mais uns 40
kms de bicicleta, ainda ter que enfrentar mais
outros 40, em saga noturna,
espécie de duplicado, a
tarefa não era fácil. Urgia,
pois,
dar a volta à situação, concebendo
um tipo de transporte
alternativo.
Formou-se, então, uma comissão ad-hoc
cujo propósito seria entabular
negociações com as diversas empresas de camionagem, daquelas que
demandavam o Cartaxo, a fim de se conseguir, a preços módicos, um
autocarro que nos garantisse alguma
comodidade
e, quiçá,
mais segurança.
Após algumas démarches,
e com a adjudicação a favor do
“Vinagre, Lda”,
entrou em funções um
miniautocarro, creio que de 25
lugares se‑ntados, mas
cujos assentos muito raramente sentiram o peso
e o contacto do traseiro de
certos energúmenos. É
verdade. Sentados,
era coisa
que quase nunca acontecia naquela amálgama
de gente mal formada e pior
comportada, salvo raras exceções como, por
exemplo, as duas meninas que
tiveram a desdita de fazer
parte dos passageiros daquela
carripana pejada
de tal
deprimente turba. As alunas,
colegas de viagem, Lurdes Pina e Alice Gaspar, devem ter-se
arrependido mil vezes da hora em que decidiram anuir a tais
companhias. As moças, a par do
motorista Sr. Joaquim, eram das poucas pessoas bem comportadas dentro
daquele acanhado meio de transporte. Que gente tão
insubordinada e tão mal formada que lhes havia de sair na rifa.
Desde cantilenas da treta,
anedotas a roçar a boçalidade, pulos e urros, de tudo se viu. A
Lurdes, sempre que passava por algum de nós nas ruas do Cartaxo,
baixava a cabeça e passava-se para o passeio oposto. E eram as
meninas filhas de soldados da GNR, senão... pior seria.
Além dos nomes já elencados na
pretérita publicação do JdC, daquele
grupo que se fazia transportar em bicicleta e que neste ano optara
pela carripana, entraram, além da citadas Lurdes
e Alice, o Rui Martins, o
Tibério, o Galinha,
o Rogério sapateiro,
o António J. Baeta, o Zé dos
Amiais,
o Domingos Caramelo,
o
Ludgero Capeleiro, o Ângelo
Pego e o Acácio.
Mais um, menos um, éramos perto de um quarteirão
de jovens, pela medida antiga.
Quando
se muda de sistema nem sempre se
colhem
benefícios
em todos os seus parâmetros. Senão,
vejamos: o miniautocarro saía do Cartaxo por volta das 19h15,
mas
a partida de Santarém era às 23h00, o que condicionava
sobremaneira o
modus vivendi
daquela juventude. De facto, no que concernia a eventos em
sociedade, o leque era bastante limitado. A bola e
o “Bonanza” eram
ao domingo, mas, fora isso, além de um ou outro programa televisivo
em que metia película com porrada
de criar
bicho,
ou aquele bailarico que os chicos-espertos
da aldeia tinham programado para o sábado, com início às 20h00, o
que, por
razões óbvias, nos tinha sido vedado. Mas
havia mais, como
se comprova no capº IV.
Jornal de Cá - 27 - março 2018
O
Corpo Discente do Concelho (II)
Mas
como, em termos de bicicletas,
a rapaziada não
era muito apologista de
cicloturismo, e recorrendo
ao sangue na guelra próprio daquelas idades, quase todas as noites
havia refregas, a bom pedalar, entre o Cartaxo e Santarém.
Certa tarde de julho, quando o
grupo se encontrava em formação, na
Praça
15 de Dezembro, junto à praça
de táxis, a fim de
rumar a Santarém, passaram pela zona, mesmo
em frente aos nossos narizes, em
bom ritmo, dois ciclistas do Águias de Alpiarça, que, pelo que se
supunha, andavam a treinar, a fazer preparação para a Volta a
Portugal, prova que se avizinhava. Um era o “independente”
Amílcar Mateus, o outro, mais novo, ainda
“amador”, tinha o nome ou
apelido de Jacinto. Os dois ciclistas desceram a rampa do Augusto
Ferreira, deram a volta pelo Cruz & Jarego, subiram pela EN 3, e
voltaram a aparecer na Praça
15 de Dezembro,
onde nós, de combinação feita, os aguardávamos. Julgo que os dois
terão reparado no nosso grupo, já que, com toda aquela parafernália
de bicicletas ali expostas, difícil era passarmos despercebidos.
Vimos que o duo
alpiarcenses
tomara o rumo de Santarém, agora,
era a nossa vez de o fazer. Por
isso, seguindo-lhe a peugada, quando
chegámos à Churrasqueira Ribatejana, já íamos colados na
sua roda. Naquele momento,
fomos recebidos com desdém, acompanhado
de sorrisos cínicos, como quem diz: - Esperem, seus nabos, que já
vão ver como é que se pedala!… Mas
isso, a nós, putos imberbes mas vaidosos, não nos atormentava.
Na subida de Vila Chã, com um
primeiro safanão, o nosso grupo abanou e, a partir daí, apenas
quatro
de nós os acompanhavam. Depois, no Alto do Vale, a
mais um esticão, respondemos
com a nossa união. Daqui em
diante, embora em bom ritmo, tudo seguia sereno. Porém, passando
pela Quinta do Líquis e entrando nas Padeiras, assim
que a estrada começou a inclinar, o Amílcar deu uma forte sapatada,
mas o primeiro a rebentar
foi o seu benjamim
Jacinto. A meio da subida já só dois de
nós prestavam guarda-de-honra
ao primeiro. No fim, em frente ao Posto da PVT, o sprint final teve
três
protagonistas, mas o Jacinto, tendo-se atrasado um pouco, já não
assistiu à nossa chegada.
Para nada! Peneiras da juventude…Não
tivéssemos ilusões, porque pedalar 13 kms não se comparava a uma
etapa em linha, de cem ou mais kms, mas lá que tínhamos a mania,
isso tínhamos.
Lembro-me de
muitos dos que compunham aquela comitiva. Dois eram pontevelenses,
o António Silvestre e o Vasco Pego. O primeiro, talvez por ter mais
arcaboiço, também tinha a bicicleta mais pesada de
todas, mas
enquanto o Vasco já vinha a pedalar desde Pontével, o primeiro,
como era empregado do Dr. Rocha Homem, partia do Cartaxo.
Depois, de Vale da Pinta, vinha eu, o Humberto e o Luís Gaia. Do
Cartaxo, eram o Zé
Florindo, o Zé Octávio, o
Fernando Mil-Homens, o Rogério Fanã
e o Jorge Xavier. Depois, mais
à frente, no Vale de Santarém, tendo
nós quase meio caminho andado, aguardavam-nos
os Isenteiros
Mesquita e Francisco Vassalo.
O nosso colega Rui Fonseca teve
o privilégio de se fazer transportar na sua “Famel Foguete”. Era
bem mais fácil. E para
o ano, como seria?
Jornal de Cá - 26 - fevereiro 2018
O
Corpo Discente do Concelho (I)
Estudar? Estudar para quê? Era
esta a questão
que, nas décadas de 50-60, aflorava, em permanência, nos vários
círculos
do concelho. Se havia algumas pessoas que, inconscientes
pelo seu
desconhecimento e alguma dose de sensatez, se colocavam à margem
desta questão, deixando o
tema aos entendidos, muitos eram aqueles que, com ou sem conhecimento
de causa, faziam questão de opinar acerca da mesma. Enquanto uns
defendiam que o ato da escolha de enveredar pela via estudantil era
útil e benéfica, muitos outros argumentavam que isso
do estudar era só para
ricos e vaidosos. Argumentos eram os mais variados: enquanto uns
quantos avarentos diziam que, “hoje em dia, com tanta gente a
estudar, não vai haver colocação compatível para todos”, também
havia quem advogasse que sim, senhores, o seu filho, apesar de ter
que trabalhar de dia para ajudar às despesas da casa, também ele
entraria na vida académica, ainda que fosse no ensino noturno. É
verdade que a idade condicionava esta modalidade, já que as
matrículas estavam vedadas a menores de 14 anos, mas se o rapaz, a
trabalhar desde os 10 aos, já tinha dado provas de possuir
arcaboiço,
tarimba e espírito de sacrifício, também estaria apto a enfrentar
a vida académica noturna, acumulando-a com a de pedreiro, aprendiz
de oficina ou balconista.
Se os estudantes diurnos do
Externato Marcelino Mesquita, do Liceu Sá da Bandeira e da E I C de
Santarém, já estariam, de certo modo, encaminhados, os candidatos
sobrantes também tinham que fazer pela vida. Não adiantava
vociferar,
lamentando a falta de posses ou qualquer outro óbice e, muito menos,
sentirem-se marginalizados. E, no sentido de contrariar aquele
quadro, foram aparecendo, aos poucos, uns voluntariosos, qual
Mem Ramires, decididos a
avançar sobre
Santarém.
Na maioria eram caloiros, como eu.
E enquanto um grupo se deslocava por meio das carreiras de autocarro,
outro, achando que essa modalidade era incomportável para as suas
posses, muniu-se de bicicletas a pedal e vai disto:
Cartaxo-Santarém-Cartaxo. Chovesse, trovejasse ou geasse, os
horários das aulas eram para cumprir. Havia cheias no Tejo? As
águas, submergindo as vinhas na zona da Ponte da Asseca, já haviam
subido meio metro acima do dorso da estrada de asfalto? E,
isso, que tinha?!...
Não havia um muro, ao
longo do qual
se podia fazer equilibrismo com a bicicleta às costas? Então, era
mesmo esse o caminho. Faltar às aulas é que não.
Éramos uns 12 ciclistas, sendo 2
de Pontével, 3 de Vale da Pinta e 7 do Cartaxo. Pelo caminho, íamos
arrebanhando
mais 2 em Vila Chã de Ourique e outros 2 no Vale de Santarém.
Havia, no entanto, 1
que possuía motorizada. Como naquelas idades (14-18) todos têm a
mania da competitividade, senão
de superioridade sobre os
demais, as idas e vindas eram feitas em pedalada
a
alta rotação. O protótipo das máquinas diferia bastante: enquanto
umas não passavam de meras pasteleiras, com roda 26, uma só
pedaleira e carreto 18, pesando para cima de 20 kg, outras, muito
sofisticadas, que não pesariam mais de 8 kg, tinham roda 28,
pedaleira dupla e carretos entre o 13 e o 25, autênticas
penas.
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