Quando a História passou
pelo Cartaxo (II)
Na
sequência da crónica do mês de junho, o Cartaxo voltou a ter
protagonismo no que concerne a factos políticos de algum relevo.
Quando,
em 1958, o Chefe de Estado, general Craveiro Lopes, entrou em
conflito com Salazar, deixou de ser proposto para um segundo mandato.
No propósito de sair da situação de impasse, resolveu Salazar
convocar eleições para a Presidência da República. A contrapor as
candidaturas dos independentes
Dr.
Arlindo Vicente e general Humberto Delgado, Oliveira
Salazar apresentou o seu
candidato da União Nacional, o contra-almirante Américo Thomaz.
Após o descalabro, pela razão da força, de umas pérfidas
eleições, e porque o sistema vigente era do género do vira o disco
e toca o mesmo, de forma a manter o figurino político de então
nunca o sistema permitiria que
aquelas eleições fossem
livres. Esse golpe culminaria
com a nomeação, por Salazar, do renegado
ribatejano Américo Thomaz,
para exercer o cargo de
Presidente da República. O
Thomaz, contrariamente ao que dele se dizia, não me pareceu ser
burro, de todo. E eu, numa reunião em que estive presente, durante
uma sua visita à Marina de Vilamoura, – o
que transcreverei noutro local -
pude testemunhar isso mesmo. No entanto, rezam as crónicas e
testemunhos de então, que quem
tudo comandava na retaguarda era o seu mentor Oliveira Salazar.
Essas
eleições tiveram campanha e tudo. Com a diferença de os gastos dos
independentes terem sido obtidos através de subscrições públicas
e donativos particulares, ao contrário do representante da União
Nacional cujas verbas foram suportadas pelo governo de Salazar, isto
é, pelo Zé Povinho. Contudo, além dos muitos milhares de boletins
de voto roubados pela PIDE, muitos outros nunca chegaram a certas
zona do país, onde se supunha haver muito povo do contra.
Foi
assim que, numa manhã de primavera de 1958, apareceu pelo Cartaxo, a
fazer campanha, a comitiva do general Humberto Delgado. Eu, com 14
anos, nunca tal tinha ouvido, quanto mais visto. À época,
trabalhava na Recauchutagem e, nessa qualidade, fui incumbido de ir
comprar umas tintas à Drogaria do Carlos Pego, porém deparei-me com
o estabelecimento encerrado. Pelo que me disseram, o dono teria ido
para o ajuntamento, na Praça
15 de Dezembro.
Nem acreditei, já que sempre ouvira dizer que o Salazar nunca
permitiu ajuntamentos onde figurassem mais de 2 pessoas. Curioso,
desci aquele pedaço da Batalhoz. E nem foi preciso avançar além
do Manel d’ Água, para ver aquele mar de gente que ali estava sem
eu saber porquê e para quê. No entanto, deduzi que aquela multidão
é que seria o tal ajuntamento. Mas com que finalidade?
Perguntei ao cartaxeiro Alfredo Cachorrinho
o que se passava. Este,
quase em surdina, explicou-me
o fenómeno. Estava por aí a
chegar o general Humberto Delgado, o assumido ribatejano que se
propunha derrubar de vez o
sinistro regime
salazarista.
Humberto
Delgado chegou, enfim! E eu vi-o ali, a uma dezena de metros. Ouvi
gritos de vivas e vi lágrimas
em muitos rostos, mas o Carlos Pego chorava convulsivamente agarrado
ao general. Porquê? Fiquei
chocado e confuso.
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