O
Corpo Discente do Concelho (IV)
Na E. I. C. de Santarém, o pessoal
estava bastante disperso. Com cursos e anos distintos, horários
muito diversificados em que todos tinham que esperar até à saída
do último elemento das aulas, não era fácil conjugar a saída do
grupo para o Cartaxo a horas decentes. Na verdade, nos
tempos da bicla, sempre havia a possibilidade de dar o salto
para a santa terrinha, onde nem sempre havia muito que fazer, salvo
umas passagens, rua abaixo rua acima, à cata de algumas miúdas, ou
deitar o olho no café local, onde algumas estariam a ver as
séries Bonanza, Dr. Kildare, o Santo, ou o Homem
Invisível. Ainda nos tempos da
bicla, no
mês de maio,
a nossa sorte eram as novenas. Em andamento de contrarrelógio, desde
Santarém, sempre dava para
ver as meninas à saída do
evento religioso. Mas só
ver, e ao longe, porque,
qualquer de nós,
com a farpela toda encharcada pela
sudação,
nem a moçoila menos
prendada da terra se
agradaria de tais bacanos.
Porém, desde que se optou
pela carripana como transporte, tudo ruiu.
Como
era, então, passado o tempo de espera na cidade de Santarém? Na
falta de proventos, que nos
coibiam de desfrutar
de outras veleidades mais
profanas, valiam-nos
as passagens do carismático
Clementino pelo adro da
Escola. O tipo, trajando de
avental e pantufas, qual serviçal noturna, transmitia uma carga
energética ao pessoal que desatava tudo ao piropo e à malcriadice.
Também o santareno Pimenta, sempre que por ali deambulava, fazia as
delícias do pagode. O fulano
tinha a mania do Jiu-Jitsu.
No sentido de pôr o pessoal em respeito, ameaçava-nos com um golpe
de Jiu-Jitsu 47. Pelos vistos, ele
teria os seus golpes todos numerados. A
propósito do Pimenta, o assalto ao paquete St.ª Maria tinha
ocorrido na altura. Ainda não se sabia do seu paradeiro e,
a esse propósito, muito se
especulava. Então, esse facto também era argumento da malta para
amofinar o Pimenta, dizendo: - Ó Pimenta, tu é que tens o navio
escondido debaixo da cama! Vai
mas é entregar o barco ao
homem! - o homem, subentendia-se, era o Salazar.
Também algumas serenatas,
previamente combinadas, entre a escumalha de alunos da
Escola Industrial e Comercial; do Liceu Sá da Bandeira e da
Escola de Regentes Agrícolas, tinham lugar na velha Scalabis. Os
recontros, quase sempre a partir das 22h, tinham lugar no
jardim, em frente à Camionagem Ribatejana, ou no Campo da Feira.
Sendo este último local menos vigiado pela P.S.P., havia
livre-trânsito e tempo para esmurrar e ser esmurrado. Mas eles
gostavam!... Todos gostavam: tanto os que assistiam, como os que
davam e levavam. Tanto assim era que, amiúde, repetiam a dose.
De uma vez, a anunciada estrela da
E.I.C.S. para a peleja noturna era o meu colega Pazadas. Largos
ombros, arcaboiço a condizer, pernas arqueadas e com um par de
manápulas que metiam respeito, foi-lhe confiada a nobre missão de
pôr na ordem um tal rufia da Escola Agrícola. Nós, fiéis
seguidores do Pazadas, exultávamos com o tareão infligido ao
lavrador. Foi tal a surra que até foram chamar o prof.
Chambel, subdiretor da E.I.C.S. para, através da sua veia
diplomática, pôr cobro ao descalabro.
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