Quando
a História passou pelo Cartaxo (I)
A
fazer fé na Wikipédia, desde o séc. XII, muita gente ilustre terá
visitado ou, simplesmente passado, pela zona que, hoje, confina o
concelho do Cartaxo. De entre todos eles, elenco apenas alguns, como
o fundador Afonso Henriques, Isabel de Aragão, D. Dinis, também
Nun’Álvares Pereira, mais o general Junot, o compositor húngaro
Franz Listz, Almeida Garrett e, até, imagine-se, o estadista
Oliveira Salazar, que, numa das raras saídas de S. Bento, estagiou
uns dias na Quinta da Cruz, propriedade do seu amigo Embaixador
Teixeira de Sampayo. O advogado e dramaturgo Ramada Curto, inimigo
figadal de Salazar, também foi contemporâneo do Presidente do
Conselho no concelho, que não no mesmo sítio. Viveu na Quinta do
Refúgio, de que era proprietário, porém a uma distância de uns 4
km, em linha reta, ineficaz para qualquer golpe à base de zagalote.
Mas as ilustres figuras que demandaram o Cartaxo não se quedavam por
aqui, como mais à frente se revela.
A
antiga Feira do Ribatejo - assim chamada antes da nova denominação
de Feira Nacional de Agricultura – considerada que foi uma montra,
um evento nacional de relevo, sempre teve a apetência no
aparecimento e no aproveitamento de figuras políticas, altas figuras
de Estado. Mesmo no período em que não havia concorrência,
era preciso vincar, marcar posição e mostrar que quem mandava ali
(e aqui) eram eles. Como se compreende, os ditos cujos, não
habitando em terras do Ribatejo, sempre que se deslocavam à velha
Scalabis tinham que, em condições normais, fazer o seu périplo
através de terras da então vila do Cartaxo. A viagem era curta. Até
porque, ao longo do traçado rodoviário entre Belém ou São Bento e
Santarém, não tinham as suas limusinas que esgrimir e fazer
golpes de cintura para atravessar o coração (salvo seja) do
Cartaxo, terra que chegou a ser uma linda vila ribatejana. À época,
circulando numa EN3 sem rotundas, nem certos tipos de atafulhos que
provocassem engulhos, a comitiva não tinha motivo para se deter,
salvo se, por via de outros altos valores, tal se justificasse, como
veio a suceder.
Naquele
tempo, em meados dos anos 50, o Presidente da Câmara Municipal do
Cartaxo era o eng.º João Carlos Dias de Castro Reis. Homem
escorreito, de bom trato, com a figura ideal para ocupar tal função,
era, também, uma pessoa de muito prestígio a nível municipal.
Tirando partido do raro momento, não deixou o edil de apelar à
presença das massas, a fim de emoldurar o cenário condizente com
passagem pela vila do “venerando”, do “mais alto magistrado da
nação”, como na altura era tratado o P.R., Américo de Deus
Rodrigues Thomaz. Ele, Thomaz, um ribatejano de Ferreira do Zêzere,
que, diz-se, tinha vergonha de o ser.
A
manifestação e a lisonja local de apoio ao P.R. foram de tal modo
efusivas que, no rescaldo de curto prazo, catapultou João Carlos
Reis para Governador Civil de Santarém. Não sei se o concelho do
Cartaxo chegou algum dia a tirar proveito do facto, mas, a meu ver,
também não seria caso para isso.
Todavia,
quer em 1958, quer em 1974, a História voltou a terras do Cartaxo,
conforme se narrará na próxima edição.
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