Quando
o Cartaxo foi Aeronautizado (I)
Segundo
penso, só preservando e revisitando o passado, se pode cimentar o
futuro. Assim sendo, seria bom lembrar que: povo que não cultive as
suas memórias, as suas raízes, terá maior dificuldade no augúrio
de um futuro sustentado. Por isso, abordando o tema que nos traz aqui
hoje, cujo título, meio esquisito, parece não ter cabimento, tem
tudo a ver com a época em que o Cartaxo se submeteu à Aeronáutica
Militar, ficando Aeronautizado.
Tropa
é coisa desatualizada da qual, desde há algumas décadas, pouco ou
nada se tem falado. Caiu em desuso. Longe vão os tempos – e ainda
bem – das grandes incorporações militares, com alguns
voluntários, no sentido literal do termo, e de muitos outros, a
maioria, que foram “voluntários à força”. Se o lema era
defender a Pátria até à última gota de sangue… Deixando para
trás o que deveriam ser os mais belos anos de juventude e um início
de vida profissional em fase de consolidação, era vê-los, no dia
da inspeção militar – o dia das Sortes - jorrando alegria,
acompanhados de acordeonista contratado, dando voltas e reviravoltas
pelas ruas da terra. Em meados dos anos 50, nalguns meios, como Vale
da Pinta, o grupo deslocava-se, a pé, até às Quintas dos Lameiros
ou do Atravessado, a fim de se encontrar com o numeroso rancho de
moçoilas que por ali labutava na agricultura. O rancho tinha direito
a uma hora de sesta, mas, naquela tarde, a soneca iria ser
substituída, com vantagem, pelo bailarico que os rapazes das Sortes
se propuseram levar até elas. Rapiocando ao ritmo de marchinhas
abrasileiradas e passodobles, todos balhavam. Até aqueles que
o não sabiam e nunca se tinham agarrado a uma rapariga, mesmo às
pisadelas e aos tropeções lá iam inebriando as suas almas vivendo
o sonho das suas ainda curtas vidas.
Quem
ficou apurado para todo o serviço militar estava radiante, feliz da
vida e tinha direito a colocar, na lapela do seu primeiro fato, duas
fitas: uma encarnada e outra verde. Porém, para aqueles que ficaram
de espera ou foram reprovados, os primeiros exibiam uma fita
amarela e outra branca, os outros, uma triste amarela como se fossem
portadores de iterícia. Era uma tremenda angústia, da qual nem as
famílias se alheavam, chorando pelo fracasso. Era mau sinal: ou se
era raquítico e o Exército concedia-lhe mais um ano para engordar,
quiçá à força de casqueiro e batatas, ou tinha qualquer outra
maleita ou deficiência física que o inibia de corresponder ao
perfil de um valente e garboso militar. Por isso, em vez de ir
atrapalhar nas fileiras, melhor seria ficar em casa. Mas isto foi na
década de 50, porque dos anos 60 em diante, de espera ninguém
ficava. E o facto de se ficar livre já não seria tão mal visto
assim. O pessoal, vendo no ar o espetro da mobilização e embarque
para as guerras de África, já não embarcava numa de herói. Isso
era mais para os filmes. Como o mundo pulava e avançava,
até a malha da triagem das inspeções foi amplamente alargada.
Apenas zarolhos, manetas e pernetas ficavam de fora das listas de
carne para canhão; quase todos os outros, válidos e menos
válidos, marcharam rapidamente e em força para terras de
além.
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