O Sotaque e as Cunhas
E foi aí, depois deste primeiros
contactos de proximidade, que começámos a perceber que, afinal, o
falar à moda de Vale da Pinta não era padrão nem modelo para
ninguém que não fosse genuinamente valedapintense. É verdade que,
até então, e além da nossa própria matriz linguística, apenas
conhecíamos as sonoridades do Cartaxo e de Pontével. Mas, caramba!
Para tão curta distância geográfica entre estas três localidades,
porquê tão diferentes nas pronúncias das suas populações? Eu nem
me atrevia a imaginar qual o tipo de fonética
reinante nas aldeias que pertenciam a Pontével, como os Casais
Lagartos, Casais da Amendoeira, Casais dos Penedos, Cruz do Campo,
Casais de Vale da Pedra e Reguengo de Pontével. E na Ereira e sua
vizinha Lapa? Seria que os seus naturais também tinham sotaque?
Também os falares
das ribeirinhas Valada, Porto de Muge e Reguengo de Valada, eram por
nós desconhecidos. E em Vila Chã de Ourique (na altura diziam-nos
que era o Casal d’Oiro), ali a dois passos do Cartaxo, como seria
afinal? Seria que, a nível concelhio, nos entenderíamos uns aos
outros sem precisar de intérprete?
A verdade é que a ordem natural
das coisas não se compadecia com tais limites linguísticos e, muito
menos, geográficos. Chegava o momento de soltar amarras e nos
tornarmos livres. Porém,
nada de ilusões, porque, logo à partida, ficámos com a noção de
que o conceito de liberdade tinha muita subjetividade. Em princípio,
seria como uma ramificação, cujas linhas divergentes não tinham
origem na geração de que falo. A estratificação da sociedade
civil em camadas estudantis e o vasto leque das laborais, já vinha
de longe. Pelo que se sabia, a cor da massa encefálica pouco ou nada
tinha a ver com as saídas (nestes casos, entradas) nos mercados.
Tal como a cinzenta nem
sempre acompanhou o estudante, também a amarelada não era exclusiva
dos excluídos. E o mais curioso é que nem sempre era cada qual a
escolher o seu destino: ele tinha que se sujeitar às regras
que lhe iriam ser impostas, sem direito a quaisquer veleidades. Que
interessava que eu quisesse vir a ser estudante a tempo inteiro, ou
um mecânico enfiado num garboso de fato-macaco, se a sociedade me
restringia esse meu desiderato? Não bastava querer: era preciso
outros atributos, a começar pelas posses materiais, passando pelo
rol de padrinhos, cujo empenho redundava nas respetivas cunhas. E
demos connosco a observar o cotejo de hipóteses que se nos
afiguravam, mas que, no fundo, muitas delas nos seriam vedadas logo à
partida.
Também aqueles que eram relegados
para fora da esfera académica ou mecânica tinham que fazer pela
vida. Não adiantava carpir. Por tal motivo, mais lhes valia
agarrarem-se a um leque de cunhas mais fracotas
e entrarem nas áreas da
serralharia civil, canalizador, eletricista e balconista. Contudo,
mesmo sentido algum desconforto por não fazerem parte das elites,
bem podiam sentir-se moderadamente satisfeitos e levantar as mãos a
Deus, porque bem pior que isso ainda estaria para vir.
Foi por isso que apareceu o
pessoal sem cunhas nem dotes, que se viu relegado para patamares
inferiores.
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