Uma
Feira dos Diabos (II)
Aos alucinantes gritos de “fugiu
o touro!”, o pânico tinha-se instalado no terreiro e ruas
contíguas. Havia pessoal que, desorientado, julgava fugir do boi,
mas sem saber bem para aonde. Gente que fugia, só porque via outros
a dar à sola e
eram arrastados nessa debandada.
A verdade, porém,
é que a maioria nem sequer
viu touro algum. Mas lá que o bicho tinha fugido, isso tinha.
Agora, era o bonito! Aproveitando
o generalizado tresmalhar, alguns gabirus
forasteiros, vindos sabe-se
lá de onde, tirando partido da onda tumultuosa instalada, deram em
saquear e ensacar tudo o que podiam. Nem as tendas dos ciganos
escaparam, coitados.
Entretanto, para confundir ainda
mais a situação, começaram a chover boatos da mais variada ordem:
o João Preto, aconselhando calma, afirmava que o animal já estava
em segurança, pois tinha sido laçado pelos bombeiros, mesmo em
frente à montra do Zé Lanheiro. Uma tamanha falsidade, que o
bombeiro Edmundo da Caraga
se apressou a desmascarar.
Segundo o Edmundo, o boi foi visto a caminhar junto à Fonte do
Pingo-Pingo, rumando pela EN3, no sentido de Lisboa. Essa é que,
para ele, Edmundo, era a verdade. Outro trapaceiro! Na verdade, uma
hora depois, o Joaquim Domingos, vindo de Valada, trouxe a notícia
de que o touro tinha sido laçado pelos campinos, perto da Quinta da
Aramenha.
Tendas rasgadas, bancas viradas do
avesso, mercadoria surripiada e meia dúzia de feridos, era o saldo
negativo apurado em primeira instância. Muito do pessoal que, num
instinto de defesa, se tinha amotinado nas estreitas ruelas
perpendiculares ao terreiro, começara a dispersar. Aqueles que se
tinham refugiado nas tabernas do Paulino, Paveia, e Etelvino,
bendiziam a hora em que o fizeram, pois não correram qualquer risco.
Porém, o grupo situado mais a norte, que, em tropel, imbuído de um
instinto de sobrevivência, se apressara a invadir a tasca do
Serrazina, não teve a mesma sorte, porque o arcaico e antissocial
taberneiro, numa atitude desprovida do mais elementar humanismo -
talvez por ter escutado o slogan
“fugiu o touro!” - expulsou o pessoal invasor, acabando por lhes
fechar as portas na cara, trancando-as pelo interior. Por milagre, ou
obra do acaso, o boi tinha rumado a sul.
Na manhã do dia seguinte, as
coisas já estavam, de algum modo, estabilizadas. Como era tradição
na Feira dos Santos, o espetáculo taurino nesse segundo dia era uma
vacada. Ora, tendo em conta que os acontecimentos da véspera teriam
sido uma lição para todos, seria de esperar que nesse dia tudo iria
correr pelo melhor. Mas de uma coisa todos tinham a certeza: o touro
não fugiria. Se palavras leva-as o vento, mais longe irá um grito.
Eis senão quando, um grito, emanado de alguém que se encontrava
perto do touril, ecoou no ar: “fugiu o touro”! Eh, diabo!... Não
podia ser! Ah, pois! Tratando-se de uma vacada, quando muito, o que
fugiria seria uma vaca. Foi quando um grupo de malta da terra deitou
a mão ao gritão-mor,
que tinha mais de golpista do que de aficionado e que nem sabia
destrinçar a diferença entre um boi e uma vaca.
Assim, a “Feira dos Diabos”
não passou de uma má intenção.
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