O Fecho Laboral
Começava-se então a delinear a
classe dos trabalhadores rurais, ainda na categoria de juvenil. Era
trabalho indiferenciado? Não, não o era, de todo. Era variado, mas
bem digno. Comparando este com o tema dos desclassificados abordado
na crónica de novembro, acaba por não ser assim tão mau. Mas,
mesmo assim, dá vontade de perguntar: - E, porque não enveredar por
outra carreira que não a de agricultor assalariado? Esta ocupação,
além de ser desgastante e mal remunerada, também não era lá muito
bem vistas no contexto social do concelho.
Diz o Zé Povo que “quem
não tem padrinhos, morre mouro”.
Só falta dizer que o ditado se refere a Portugal e nunca ao Reino de
Marrocos ou à Mauritânia. Esses, por mais ou menos ricos que sejam,
morrem sempre mouros. Mas agora estamos a falar de Portugal e,
principalmente, do concelho do Cartaxo, onde a realidade era bem
diferente.
Os rurais saíam de casa, pela
madrugada, com o mal aviado bornal a tiracolo, a caminho das quintas
do Atravessado ou dos Lameiros, e voltavam, já noite cerrada, com
aquele alforge tão vazio como o estômago de quem o carregava.
Quando os locais das fainas se situavam mais a sul, na lezíria, lá
pelas quintas das Galochas, Palmeira ou Marquesa, pernoitando em
acolchoados térreos,
semanas a fio, seria migrar dentro do próprio concelho. Desde andar
agarrado às rédeas de uma parelha de éguas, na grade, a alta
velocidade, até ao asir da soga de uma junta de bois, a gradar ou a
lavrar, de lua a lua, passando pelas mondas e ceifas de trigo, apanha
da azeitona ou vindimar, tudo fazia parte da labuta de quem, por
azar, inépcia ou vocação, quem sabe, parecia ter o destino
traçado. O corpo, esse, não falava mas contorcia-se com dores.
O pagamento por tal esforço,
através de uns míseros 12 escudos diários, tinha lugar no fim do
dia de cada sábado. E se, para os adultos, estava feita a
compensação pelo esforço despendido, para aqueles escravos em
miniatura, entre os 11 e os 15 anos, era a triste satisfação do
dever (?) cumprido. Com sorte, podiam usufruir da quantia suficiente
para, ao domingo, mercar uma laranjada, 5 tostões de amendoins e
duas jogatanas numa qualquer mesa de matraquilhos da aldeia. Com 5
escudos fazia-se a festa. Entretanto, os proventos entrados na
contabilidade do lar, sabiamente geridos pelas chefias guardiãs do
tesouro caseiro, cifravam-se em 67 escudos semanais.
É provável que, se fosse nos
dias de hoje, alguma gente mais jovem - aquela que, sem ofício nem
benefício, e por via do destino (para quem acredita) se achou
implantada
neste concelho - não se sentisse minimamente confortável com as
condições de antanho, mas essa era a dura realidade de um Mundo que
quase chegou a ser perfeito. E se, em tempos remotos, havia carências
de toda a espécie; no meu início
ainda apanhei laivos de certas dificuldades, mormente por via dos
resquícios da II Guerra Mundial. Todavia, a partir de meados dos
anos 50, com o incremento verificado em todas as áreas, o cenário
das condições de vida das populações melhorou substancialmente.
Enquanto isso durou, o Cartaxo foi uma terra rica. Uma terra onde
havia de tudo e dava gosto viver.
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