Uma
Feira dos Diabos (I)
Naquele ano, em meados da década
de 50 do séc. XX, a Feira do Cartaxo, contrariando o propósito de
honrar e fazer jus ao pomposo e solene título de Feira de Todos os
Santos, tal como lhe fora conferido pelos seus fundadores, no
longínquo séc. XVII, acabava, agora, de sentir a torpe ameaça de
ser bruscamente apelidada de “Uma Feira dos Diabos”.
De facto, analisando friamente as
rocambolescas peripécias ocorridas no recinto da feira, e pese
embora o mediano grau de gravidade de que se revestiram algumas
situações, também não foi nenhuma catástrofe que se abateu sobre
o evento que justificasse tal radicalização... Todavia, não fora a
tenacidade e o bairrismo do cartaxeiro comum, ao não permitir que
uma meia dúzia de supersticiosos, aglutinados a um grupelho de
maldizentes locais - os do costume - viessem a terreiro infernizar a
feira, invertendo-lhe o nome, não sei, não!
O dia 1º de novembro,
contrariando o Borda d’Água, amanheceu soalheiro. Por volta das
11h00, o arraial da feira começava a ficar bem composto; inclusive
já se denotavam enormes manchas de forasteiros, daqueles que, ao
invés de ver o fundo à panela, preferiam observar o testo. Por
isso, foram cedo. Os comerciantes, augurando um grande dia de
negócio, esfregavam as mãos de contentes, parecendo estar a contar
com o ovo no dito da galinha. Porém, entre augurar e agoirar há uma
ténue linha que, dependendo do prisma, tanto pode cambar como
descambar. E foi esta mesmo que aconteceu.
À época, a tourada era o ponto
forte da Feira dos Santos. Quase sempre com um bom cartaz
tauromáquico, as muitas dezenas de bandeiras que simbolizavam o
espetáculo eram hasteadas, de véspera, lá no alto, na cimalha
periférica da praça. Mas, para haver tourada, tinha que haver
touros. Estes, escolhidos como elite de entre uma apurada raça numa
manada da lezíria ribatejana, ao contrário dos seus futuros
lidadores, davam entrada pela portinhola dos fundos. Era, pois,
suposto que todo o plantel
bovino tivesse entrado pelo mesmo buraco, mas tal não sucedeu.
Negligenciando as mais elementares regras de segurança, quer o
motorista quer o abegão, mandaram as regras e a sensatez às malvas,
e vai de deixar uma descomunal fresta entre o camião e o hall
do touril. O resto, não
será difícil adivinhar: um touro mais esbelto e… rua com ele.
O animal, pondo-se ao fresco na
frescura da liberdade matinal, mas espavorido pela gritaria dos
circunstantes, encetou uma curta corrida e estacou em frente a um
carrocel. Deteve-se por ali uns momentos, talvez para saudar os seus
parentes, ruminantes ou não, tornados bandas de bancos de assento,
onde, mais à tardinha, as meninas iriam pousar os seus predicados.
Agora, era o bonito! A loucura tinha-se instalado por todo o terreiro
da feira. O pessoal, em alta berraria, gritava: “Fugiu o touro!
Fugiu o touro!”… Juravam alguns profetas da desgraça a quem o
touro, num esgar, já havia baforado
o traseiro, que aquilo era mesmo o Dia do Juízo Final. Um
boidemónio,
onde até os campinos fugiram e nem as tendas dos ciganos escaparam.
Uma razia, à cornada.
E o touro? Onde estaria agora o
touro?
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