Novos
Horizontes
Se cada um fala do que sabe, direi
que ia a década de 50 a meio, quando a Escola Primária chegou ao
fim.
Era chegada a altura de alargar
horizontes, ver para além daquela linha limite que, por força das
circunstâncias, nos foi imposta
durante 10 anos. Até então, só em ocasiões especiais, como a
Feira dos Santos ou o Senhor dos Passos, nos era dada a possibilidade
de ver, sem conviver, com as gentes da, então, vila do Cartaxo.
Isto, porque na área da saúde, sempre que se tornava necessário
uma ida à farmácia aviar uma receita, ou comprar os ingredientes
para fabricar
qualquer mezinha caseira, era, quase sempre, na vizinha Pontével.
Esta era uma opção paradoxal, já que tinha benefícios e
inconvenientes. Talvez mais estes que aqueles. Pontével, sendo mais
perto, talvez uns 2 km - p’raí metade da distância em relação
ao Cartaxo - merecia a nossa opção, ainda que sob reserva, já que
os riscos que a rapaziada corria faziam-nos correr a bom correr.
Éramos uns cinco: um interessado e quatro convidados (os capangas).
Havia quem comungasse da ideia, que só se convidava alguém para um
casamento ou para um pé-de-dança de sala, mas aquela dança,
que começava em ritmo de balada, e passava a foxtrot, acabava sempre
à brida, num galope desenfreado.
Quando entrávamos em Pontével, e
durante a caminhada até à farmácia, quase não se via vivalma; a
terra mais parecia uma povoação fantasma, abandonada. Sob forte
tensão, mirávamos cada esquina e, até à farmácia do Ascenso ou
do Marrafa, tudo parecia normal. Já com o produto da compra metido
no habitual saquito de riscado, lá ensaiávamos o retorno à terra,
a Vale da Pinta, que estando ali a uns escassos 2 km mais nos parecia
ser no fim do mundo.
Assim que a comitiva
entrava no largo do coreto, abatia-se sobre nós uma autêntica
saraivada de pedras, acompanhadas de gritos de guerra, como: -
Carrapatosos! Fora, para a terra da pedra!
Então, nós éramos os
apedrejados (com pedras made in Pontével) e tínhamos que ir para a
terra da pedra? Pedradas e mais pedradas. Mas pedradas com pedras,
porque nesta época ainda ninguém se pedrava. Pontével sempre foi
uma terra de bons atletas, mas, em situações de apuros como estas,
tenho dúvidas de quem ganharia a corrida. Pé descalço, macadame
afora, era pormo-nos a salvo, a fugir até à fronteira, além do
forno da Quinta do Covão. Tudo isto se evitava se houvesse, ao
menos, uma farmácia em Vale da Pinta. Nós, rapazitos, pensávamos
que esta coisa dos alvarás dos consultórios e estabelecimentos
comerciais que definiam o ramo de atividade, eram facultativos:
enquanto Pontével optara por médicos (Dr. Egas e Dr. Brogueira) e
mais as duas farmácias acima descritas, Vale da Pinta tinha
escolhido o alvará das tabernas.
Uma coisa era certa: transpondo
fronteiras, e pese embora o estilo primitivo e belicista que pautou
os contactos com os nossos vizinhos cartaxeiros e pontevelenses
(muito mais com estes que com aqueles), deu para entender que a
tonalidade da linguagem (pronúncia) utilizada pelo trio concelhio,
nada tinha em comum. As diferenças eram abissais, como se poderá
constatar na edição seguinte.
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