domingo, 13 de janeiro de 2019

Jornal de Cá - 18 - junho 2017


Cartaxo, concelho emblemático (II)
Em meados de 50, já a nouvelle classe média tinha o seu lugar onde praticar o culto, a bom recato. E se, por distração ou preconceito, um destes utentes pedisse um café frio em vez de uma bica, também não se ia embora sem ser servido. Quer o Picoto, quer o Porfírio ou o Miranda, todos sabiam o que a casa gastava. No concorrido “café” Miranda – onde nunca se pôs uma cafeteira ao lume - além do espaço principal, estilo “foyer”, até tinha um estreito corredor que conduzia a um recatado cantinho dos fundos, onde, através de exercícios e exéquias pescoceiras se esqueciam as agruras da vida ou a conta do merceeiro. O dito acanhado corredor tinha duas funções: a de conduzir o freguês ao local da cerimónia, sem ter que perguntar o caminho a ninguém e, no retorno, alinhá-lo entre paredes, garantindo ao fulano a máxima segurança até à porta da rua. Depois, aí… Bem, aí já o animado freguês, que entrou mudo, acabrunhado, e saiu cantando e rindo, ficava por sua conta e risco. Mas, para obviar males maiores, podia-se sempre contar com a colaboração e proteção do polícia-de-dia, noite neste caso. Tanto o guarda Correia, como o Joaquim da Silva (Marreco) ou o subchefe Matos, cada um a seu tempo, não deixariam de proceder ao encaminhamento dos utentes a bom porto, não fossem eles da Segurança Pública. O pior era quando o freguês era de Vale da Pinta; estes, que não gostavam muito de aparecer nas tabernas da terra, preferiam ir enfrascar-se para o Miranda. Era no Cartaxo, sempre tinha outra classe. Contudo, o pessoal das freguesias tinha um handicap, já que o pelouro era pertença da GNR e esta só trabalhava de dia.
Sendo o Cartaxo uma terra rica, onde as classes: média, remediada e menos afortunada, já tinham o seu setor, não fazia o menor sentido ostracizar os mais abastados. Estes, porém, antecipando-se, já tinham os seus oratórios. De facto, o “Monumental” e o “Campinos” já eram pioneiros. De entre os frequentadores do primeiro, contava-se professores, médicos, solicitadores, alguns comerciantes e, também, os emplastros. Eram estes uns fulanos, que, no intuito de se misturarem com os mais finos, pensando ser o modo de subirem de estatuto, vestiam fato preto, camisinha branca, de popelina, bem engomada, tudo no estilo de profissão liberal. Porém, bastas vezes, alguém se esquecia de colocar a roupa na barrela, o que, retirando asseio ao conjunto, acabava por lhe conferir brilho. Àquela casaca, por demais coçada na gola, o que lhe valia eram as cotoveleiras, que sempre ajudavam na prevenção.
Falando do “Campinos”, pudemos testemunhar, que, além dos industrio-comerciais irmãos Dias (António e João) e do José Manuel Santos, também o veterinário Dr. Martins e seu filho eram frequentadores desta unidade. Outras figuras, mais ligadas à alta agricultura, onde se destacaram os vitivinicultores Alfredo Leal, Francisco Ribeiro “Minhoto” e o seu feitor Travessa, Fernando Inverno e Manuel Henriques, também eles foram fiéis frequentadores do “Campinos”.
E, mais culto menos culto, era assim que as diferentes classes se distribuíam pelas capelinhas do Cartaxo.

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