Os Académicos e os
Laborais
Eles, estudantes, estariam
sujeitos à implacável triagem inserta na pauta afixada na moldura
do átrio. Ora, este critério também deveria ser aplicado aos
outros segmentos que geravam empregabilidade: porque, se no Ensino
este era o modo de minorar o número de cábulas que, ano após ano,
sem aproveitamento bastante, andavam por lá a passear os livros,
enquanto não os pusessem na rua, também nos restantes setores,
mormente naqueles que se enquadram no tecido empresarial do concelho,
seria de todo conveniente fazer a destrinça entre o bom e o mau
profissional. Tanto os cábulas como os toscos e calaceiros,
só por cá andavam a fazer
o pão caro. Mas, como “a
cada cabeça, sua sentença…”
cumpria-se a máxima épica.
Fechado que estava o tema
relacionado com os académicos, era chegada a vez de encaixar
os outros, os restantes formados
com a 4ª classe (como
disse o Solnado). Como era sabido, o sistema não se compadecia de
moralismos nem de lamúrias, porque outros valores mais altos se
levantavam e ditavam lei. E foi aqui, neste ponto, que, há mais de
seis décadas, me fui apercebendo do quanto o Cartaxo era uma terra
multifacetada e muito importante, na indústria e no comércio. Era
mesmo isto que eu estava a constatar. Ora, se eu já sabia que o
Cartaxo era um vasto monopólio nas áreas da agricultura (mormente
na vitivinicultura), bovina e cavalar, juntando as áreas acima,
podia concluir que o meu concelho era rico.
Agora, e já que a via académica
me tinha sido vedada, só faltava vasculhar
o incomensurável mercado laboral para poder escolher qual a
profissão que me dava mais jeito. Para tal, fui investigando, fui
analisando, e dei por mim a ir ao encontro de um patamar que,
presumi, se situava imediatamente abaixo daqueles que entraram na
área do conhecimento. Eram
os excluídos do mundo académico, mas situados numa primeira
linhagem laboral. Desta, faziam parte os rapazes que, por obra e
graça do mediano poderio económico paterno ou de cunhas vindas de
cima, conseguiram aval para iniciar a aprendizagem na área da
mecânica. E assim se garantia a continuidade dinástica dos
mecânicos-auto; torneiros-mecânicos; eletricistas-auto; bate-chapas
e pintores-auto. Acredito que era um regalo para os rapazes ora
iniciados, fazerem parte daquele mundo, espelhado naquelas três
grandes oficinas do ramo, como eram a “Asal”, o “Cruz &
Jarego” e o “José Manuel Santos & Filhos, Lda”. Nunca tive
a dita ou o grato prazer de, alguma vez, lá ter posto os pés, nem
sequer como visitante, mas, na figura de excluído, inveja deles
tinha e muita.
Mas não desisti e continuei
explorando. Cismei que, a par daquelas especialidades, eu situaria os
escriturários. Estes ganhariam menos, certamente, mas, pelo menos,
andava limpos e de costa direita. Desde a “Asal”, ao “Cunha
13”, “Mármores Fonseca”, “Adelino Campos” e “Batista &
Carvalho”, todas elas empregaram alguns dos tais miúdos imberbes.
Outras áreas consideradas ex
aequo
entre si, se bem que um
furo abaixo das anteriores, eram as dos serralheiros civis,
canalizadores, eletricistas e balconistas. Sem cunhas sonantes, do
mal, o menos.
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