Restrições
– Racionamentos
Como consequência do flagelo da
II Guerra, certos hábitos e tradições das populações sofreram
sérios reveses. Contudo, para a esmagadora maioria dos putos,
houve uma coisa que se manteve fiel a si própria: a do caminhar pelo
processo de pé-descalço. Tal como foi narrado na edição anterior,
aqui, pelo concelho do Cartaxo, nada desse processo fora afetado;
quem antes calcorreara de pé ao léu, poderia continuar a fazê-lo.
As exceções aconteciam nos dias em que havia festa na terra, ou
quando o fotógrafo (“a la
minute”) se deslocava à
Escola Primária para fazer o registo anual. Mesmo assim, nem todos
iam a preceito, pois ainda restavam uns quantos renitentes, alérgicos
ao calçado, que desalinhavam na observância do protocolo.
Inovações? Também as houve,
reconheça-se esse facto. Alguém de dentro do Império Salazarista -
ou ele próprio – resolveu implementar novas diretivas, que
passavam a regulamentar o modo como cada um poderia adquirir os
produtos alimentares na mercearia da esquina. Era um sistema de
cadernetas, compostas por quadradinhos picotados, a chamada senha,
onde, em cada uma delas, se designava o tipo de produto a levantar.
De entre a ínfima gama contemplada, recordo-me do café, do açúcar,
do arroz e das massas. O resto era adquirido nos candongueiros
locais, por meio de cunhas e a bom preço.
O cardápio das refeições era
muito monótono. Pela manhã, uma tijela de café com borras,
salpicado de leite. Esse leite, de cabra ou de vaca, que a leiteira
local, no seu périplo do porta-a-porta, havia deixado no portal. O
almoço, quase sempre com base em batatas e mais batatas, tinha como
ornamento uma lasca de bacalhau ou uma metade de sardinha por cabeça
(comensal). Quantas vezes a sopa do jantar fora confecionada com
recurso a ervas recolhidas nas valetas e cômoros rurais, como
urtigas, acelgas, cardos e ineixas… Desde que fosse coisa verde,
quase tudo era utilizado para compor a panela da sopa. Mas não
depreciemos tais iguarias, porque, se, na época, eram cozinhadas
como único recurso, hoje, na segunda década do séc.XXI, parece que
tais vegetais voltaram à mesa dos tugas,
quanto mais não seja pela singularidade.
Quando, no dia da Feira ou da
Festa, se matava uma galinha, era mesmo uma “festa”. A galinha
era nada e criada no quintaleco
do casebre, mas o arroz que a acompanhava fora adquirido por meio das
tais senhas de racionamento.
Na cozinha rural, sobre a lareira,
crepitava o brando lume, feito com cepas, cavacos, ramos ou vides. Os
cavacos podiam ser adquiridas no Maurício, em Pontével, na Amélia
Serafana,
em Vale da Pinta, ou na carvoaria do “pé-descalço” e sua
ajudante, a esposa Amália, no Cartaxo. Isto, entre os anos 40 e 50.
Mas, devido às limitações financeiras da época, havia muita gente
que solucionava a carência deste tipo de combustível de outra
maneira: os conhecedores do meio rural percorriam as cercanias e
deitavam a mão a tudo o que lhes dava jeito. Assim, já havia lume
para todos: tanto para os que pagavam, como para os que roubavam. Era
o despontar da democracia. Mas os fogareiros a petróleo, não
tardariam por aí.
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