Os Meandros da Primária
Volvidas que são mais de seis
décadas, pergunto-me como foi possível a uma professora, idosa e de
frágil aparência, lidar com aquela turba, de quase quarenta alunos,
da 1ª à 4ª classe, composta por gente turbulenta e mal formada.
De tez esbranquiçada, mas
cuidada, a senhora arranjava-se bem. Rosto sempre protegido por bons
cremes, com dois toques de rouge
nas faces, mais parecia uma boneca de porcelana, mas a sua aparente
fragilidade era compensada pelas três armas, que utilizava com
frequência: a cana-da-índia, a régua e os duros ossos das
falanges. Dia em que ela não malhasse
p’raí em 30% da rapaziada, nem era dia para ela nem tampouco para
a malta. Sim, porque, de parte a parte, era tudo uma questão de
hábito. Mas, se assim não fosse, como poderia a senhora levar a
cabo tão espinhosa tarefa?
De vez em quando, a fim de
aligeirar o pesado ambiente que pairava na sala de aula, a professora
da Masculina costumava ir até ao átrio, para, em conjunto com a
auxiliar, entabularem conversa sobre a habitual temática, que teria
a ver com as novidades da terra. Ora, como seria de esperar, a
rapaziada não era competente para ser deixada sozinha numa sala de
aula, por isso, para evitar que por lá se instalasse o caos, a
mestra escalava um dos alunos seus prediletos, a quem atribuía
competências que visavam evitar, ou minorar, alguma desordem. O
aluno que ficava de atalaia no gigante quadro de ardósia, de giz em
riste, era escolhido a dedo. Seria filho de algo, mas, quase sempre,
o nomeado era uma fraca figura, que nem tinha físico para apanhar
uma constipação, quanto mais dois tabefes dos matulões
prevaricadores, cujos nomes iam surgindo em catadupa. Estes bem o
avisavam, prometendo ao puto
uma punhada no queixo se, acaso, os seus nomes não fossem eliminados
da tela,
mas o rapazinho, que era nhurra
ou masoquista, e porque tinha que apresentar serviço, a princípio
não cedia. Porém, quando algum calmeirão, dos já sinalizados,
fazia menção de se levantar e caminhar na direção do escriba, lá
se ia a identidade dos mangas
e, agora, só os nomes de alguns pequenotes figuravam no quadro
negro.
Na época, travava-se a Guerra da
Coreia, talvez por isso o tema mais em voga fosse a guerrilha de
aviões de papel, que voavam pelos ares em todas as direções. Mas,
quanto a mim, este seria um mal menor, comparando com a grosseria da
horda que, ora pulava através das janelas para a rua e retorno, ora
urinava nos tinteiros embutidos nas carteiras.
Acabado que estava o diálogo
entre a mestra e a auxiliar,
onde se havia escalpelizado, de fio-a-pavio, a vida mundana da
aldeia, era a altura para o retorno da velha senhora ao cenário que
antes fora de guerra, mas, agora, dir-se-ia ser um imaculado local de
paz e meditação. Se, de entre as quase quatro dezenas de pupilos,
somente quatro pequenotes tinham prevaricado, então era motivo de
regozijo para a nossa professora. Se em casa, aos seus alunos, não
lhes era dada educação, ainda bem que aqui vieram parar ao reduto
da sabedoria, pese embora alguns destes bacanos
já terem mais de 12 anos e, alguns deles, nem tenham sequer feito a
3ª classe.
Sem comentários:
Enviar um comentário