Uma
Caricatura de Estágio
Depois de tanto estudar,
prevaricar, dar e levar (xutos e pontapés), e tantas outras
ocorrências próprias de rapazes de mau porte, chegava o fim das
nossas carreiras na
Primária. No entanto nem tudo fora assim tão mau, já que houve
atitudes, pautadas por alguma nobreza de caráter, que ajudavam a
disfarçar as malfeitorias da nossa rapaziada. Naquelas idades,
criados num meio rural tão hostil às criancinhas, também não se
esperaria que o pessoal
tivesse a veleidade de aspirar à coroação ou a outra qualquer
forma de loa. Contudo, há que ser coerente e, para que conste, quase
todos frequentámos a catequese e as missas de domingo; não éramos
nenhumas almas penadas que para ali andavam. Tendo em conta a lisonja
de que fui alvo ao ser escolhido
pela catequista, Dª Regina Couto Viana, para rumar ao Seminário, já
não me podiam estigmatizar pelas façanhas
antes cometidas. Eu acho que o pior dos males tinha a ver com o
rescaldo das confissões. É que confessar os pecados ao padre e,
após rezar as cinco avé-marias da penitência, ficar a saber que se
estava ilibado de todas as patifarias, não ajudava muito à nossa
reabilitação. Os castigos
deveriam ser mais severos e duradouros.
Mas falemos do estágio.
Tendo em conta que a nossa mestra residia no Cartaxo, era de todo
lógico que o nosso estágio
tivesse lugar na, então,
vila, mais propriamente na habitação da senhora, na rua Serpa
Pinto. Íamos a penantes,
mas muito contentes, cantando durante todo o caminho, até porque
estudar no Cartaxo era outra coisa. Porém, o desencanto não tardou:
o aposento que
nos fora destinado, e cujas portas nos foram franqueadas, era um
logradouro com entrada e saída para a rua do Quintino. Infestado de
galinheiros e coelheiras, de onde emanava um intenso pivete, era ali,
sem um mínimo de condições, sentaditos nuns toscos cepos de
oliveira, que tínhamos que armazenar na pinha
toda a matéria que a professora nos passava
à primeira hora. Só a voltávamos a ver no fim da sessão, ao final
da tarde.
Como se depreende, era verão, o
calor abafava, e nós, os quatro, ali debaixo de uma espécie de
telheiro, a sermos incomodados pelos pintainhos que, famintos, não
nos davam tréguas, não tínhamos vida fácil. Os franganitos que, à
nossa semelhança, também estavam num regime alimentar de pão seco,
lá iam depenicando as nossas migalhas, já que comida quente nem
vê-la. Mas eu, e mais os três comparsas que completavam o quarteto,
estávamos imbuídos de enorme espírito de missão, pois estávamos
avisados de que, pela frente, teríamos os alunos da Primária do
Cartaxo, do conceituado prof. Poeira, que seriam o padrão, a bitola
pela qual nos tínhamos que pautar.
Apesar de tudo, tínhamos a
sensação de que estaríamos preparados para enfrentar
o batas-brancas
do prof. Poeira. Eles eram muitos, mas só me lembro de alguns deles,
como o Veríssimo, o Júlio Neves, e o João Carlos Silveira. Talvez
por sermos tão poucos, o espírito de equipa esteve sempre presente.
No fim, tudo acabou bem. Para um
início escolar algo atribulado, e quatro anos um tanto
rocambolescos, não se pode dizer que tenha sido um final infeliz.
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