A
Primária, em Apartheid
Os anos 50 estavam aí. A Escola
Primária, em regime de Apartheid,
também. Se, para muitos, esse facto nada tinha de transcendente, era
apenas o início de uma nova década, o mesmo não se poderá dizer
para aqueles e aquelas que, no dia 7 de outubro, por força dos seus
6-7 anos, foram chamados à liça, isto é, ao SEO. Esta pomposa
sigla, agora inventada, trocada por miúdos, traduz-se em Serviço
Escolar Obrigatório. Falo por mim, porque o choque foi brutal. Mesmo
para aquela malta travessa que, durante o dia, fazia uma série de
diabruras por esses vinhedos adentro, e nos tempos livres andava
sempre à bulha,
aquele episódio da apresentação foi muito traumatizante. A
manter-se aquele ritual nos tempos que correm, não faltaria trabalho
para psicólogos, psiquiatras e afins. Sim, porque coitadas das
criancinhas!
Parece que estou a ver as cenas. A
professora Lucinda, de batinha branca vestida, sentada na sua
poltrona, a auditar as mães, uma a uma, cada qual com o seu rebento
pela mão. Estes, só faziam figura de corpo presente, já que,
durante a cerimónia, nenhum abriu
o bico. Se aquilo
fosse sempre assim, a Escola seria uma maravilha… Mas não era. De
cada vez que entrava um par (mãe e filhote) na Sala de Aula, aquela
trintena e meia de alunos levantava-se, em sinal de cortesia. Ato
contínuo, elevavam o braço direito e, com este hirto, numa saudação
ao estilo nazi, faziam as honras da casa, neste caso, da Escola. Tudo
corria bem. A coreografia não era feia; mesmo tendo em conta as
carantonhas que alguns bacanos
nos faziam, a fim de nos amedrontar; mas o pior foi a vergastada que
a professora deu na secretária, no propósito de acalmar a horda.
Empunhando uma enorme cana-da-índia cheiinha de nós, bateu com esta
na secretária com tal força que deve ter libertado para cima de uma
centena de decibéis. Naquele instante assustei-me. E, mesmo em
ambiente estranho, fiz uma birra dos diabos. Mas isso foi só uma
entrada
minha, para marcar território, porque, volvido algum tempo, já eu
era tão ou pior que aqueles. Agora, passada que foi a cerimónia de
apresentação, era hora de adaptação aos bons e maus costumes
vigentes.
Vi, depois, que o Apartheid
existia. Era real a separação entre géneros. Sim, porque do outro
lado da barricada
também havia Escola. Era a secção feminina. E, ao contrário
daquele ambiente depravado no setor masculino, as nossas amigas
princesas gozavam de uma paz e imunidade tais que, estabelecendo um
paralelo entre as duas, dir-se-ia que era o Inferno e o Céu. O
famigerado e sinistro muro de separação entre géneros era
aterrador. Mas, além da fronteira física que esse muro
representava, havia um prolongamento virtual do mesmo. Rapaz ou
rapariga, que fossem detetados para além da linha invisível, era
denunciado/a à Mestra. Estas, além dos bofetões, palmatoadas e
canadas
com que brindavam
os alunos, ainda os excomungavam, diante das plateias.
Bullying
era mais com a rapaziada. Eu, bem vistas as coisas, nem lhe chamaria
esta inglesice.
As brigas eram sempre a dois. Clãs e grupos para malhar
nos outros, não conheci. Cada qual que se desenrascasse.
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