As
Inovações, os Avanços
Aos poucos, lá se tentava sair da
mediocridade. Passo a passo, lento q.b., alguns cérebros, iluminados
por centelha de génio, foram deixando cair os rudimentares modos de
vida das populações rurais, avançando com inventos de apetrechos e
maquinetas que, pela sua utilidade e eficácia, contribuíam para um
certo bem-estar das nossas gentes.
As milenares candeias de azeite,
feitas de latão, munidas de pavio de algodão embebido naquele óleo
vegetal, e que mais parecia utensílio para velar defuntos, tinham,
também elas, finado. Agora, era a vez dos candeeiros a petróleo,
que começavam a proliferar. Mas, como sempre acontece, até nesta
vertente se fazia notar a diferença entre o rico, o pobre e o
remediado. Se o primeiro já se dava ao luxo de possuir um
sofisticado candelabro de mesa, com vidro fino e rendilhado, o
remediado sempre teria um candeeiro de pé-alto, ao invés do pobre,
cujo utensílio era marreco, de pé-raso e, por isso, com fraca
difusão de luz. Todavia, no que concerne a eventos públicos, já se
utilizava o Petromax,
de finíssima camisa rendada. Era esta a fonte de iluminação, tanto
nos ensaios como nas atuações noturnas da Banda de Música. Nas
adegas, desde o pisar das uvas até à “tiragem”
do vinho, era usado o gasómetro a carboneto. Só para beberricar é
que não havia sofisticação: uma vela ou um coto de cera davam cá
uma luz que até lhes enchia a alma.
Por força da marcha do progresso,
as chaminés, até então fonte de alta poluição de fuligem emanada
do borralho, já na década de 30 recebiam a suave labareda de uma
nova máquina: o fogareiro a petróleo. Com reservatório, prato
(para o álcool desnaturado), bomba, tripé, cabeça e espalhador,
foi tal o seu incremento que, a partir de meados dos anos 40, estou
em crer que não havia lar português onde não imperasse o
“Hipólito” ou o
“Combate”. Contudo, por
uma questão económica, na década de 50, algumas donas de casa
aderiram à moda dos fogareiros “movidos”
a serradura. Muniam-se de um saco de linhagem, iam à serração do
Sérgio Marques, à Sicosel ou à viúva do Fidalgo e, daí,
abasteciam os ditos fogareiros. De forma cilíndrica, espécie de
panela, depois de se lhe colocar um tarolo ao centro, na vertical,
era a restante coroa circular preenchida por camadas de serradura,
bem compactada, até ao topo. Por vezes, quando se retirava o pau,
aquilo que devia parecer um pudim não passava de uma amálgama de
lixo. Havia que ser paciente e repetir.
O que acaba de ser narrado teria
muito a ver com as zonas rurais, não só das freguesias do concelho,
mas também nos arrabaldes do próprio Cartaxo. A energia elétrica,
que se estendeu pelas freguesias em fins de 40, início de 50, não
teve, a curto prazo, um impacte assinalável no modo de vida dos
fregueses, ao contrário do que se possa pensar, já que a esmagadora
maioria dos locatários não “meteu”
luz em casa, no imediato. Eram tempos de contenção. A grande
diferença esteve nos dias em que havia serões, passados nas
“capelinhas”:
Agora, com as ruas iluminadas, sempre que qualquer cidadão fazia o
trajeto pedonal entre a taberna e sua casa, já não tropeçava
tantas vezes como dantes.
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