Os Bailes dos Pagãos (II)
Naqueles bailes do Pátio das
Comédias, havia pessoas que tinham objetivos muito diferenciados: as
imprescindíveis moçoilas - sem as quais não havia dança - estavam
ali para se divertirem, fazendo-o, por vezes, à custa do alheio, a
quem davam tampa a cada passo; as mães, suas protetoras - que os
rapazes abominavam e dispensavam de bom grado, até porque, desse
ponto de vista, elas só ali estavam para atrapalhar - assumiam a
incumbência de serem as mesmas a escolher o rapaz que havia de
enlaçar a sua menina no rodopio dançante; os atiradiços rapazolas
da vila, das aldeias e, também, da cidade de Santarém, alguns já
com largo cadastro, também não estavam isentos de mácula; os
neutrais, olheiros que, apenas e tão-somente, vão para ali
desfrutar das vistas e beber o seu copito sem se meterem com ninguém,
seriam dos mais sensatos presentes na soirée;
por último, os pais daquelas donzelas, que serão analisados mais
adiante.
Como seria de esperar, nos
bailaricos de província em que todos se conheciam, não havia espaço
para grandes veleidades por parte da rapaziada. Com o rock e o twist
ainda em fase muito embrionária, era lançada pelo conjunto uma
série dançante de três números de modinhas mais popularuchas,
estilo Mário Simões, e certas brasileiradas, que alternavam com uns
românticos slows e boleros das mais variadas origens, como do Nat
“King” Cole; Platters e Domenico Modugno. Quer isto dizer que,
nestes últimos ritmos, por demais suaves, o par dançante, cujo alvo
era o rapaz, estava permanentemente exposto aos olhares de um
inexorável júri composto pelas mães das meninas, que não perdia
pitada do que se estava a passar na pista. Mas, até aqui, tudo bem!
As velhas não eram néscias: se o par da filha fosse filho de algo e
tivesse a fama, ao menos, de possuir umas vinhas no campo, terras na
charneca ou casas no bairro, as mulheres, não só fechavam os olhos
a algum desaforo moral do rapaz, como ainda eram capazes de piscar o
olho à filha, incitando-a à luta.
Se, ao invés, o rapazola tivesse boa figura, mas como pecúlio
apenas exibisse uma viola velha e um crucifixo, não mais seria par
para a sua menina. O pior era quando, em vez das mães, eram os pais
a fazer o papel de jurados… Depois de bem bebidos, armavam-se em
guardiões das donzelas não se coibindo de confrontar, verbal e
fisicamente, os rapazes que, momentos antes, faziam par com as suas
protegidas, prejudicando o espetáculo e a harmonia que devia reinar
na verbena. Já com a mente toldada pelos vapores do éter, chegavam,
de modo brusco, à fala com o rapazola, acusando-o de querer abusar
da sua menina (algumas já com mais de 25 anos). Houve uma (só uma?)
cena no Bar em que o latagão do velho, tipo para 1,90m, pegou o
rapaz de 17 anos pela gola do casaco, levantou-o em peso e disse:
- Ó pá! Se eu te apanho a balhar naqueles despropósitos com aquela
rapariga, que é nhê filha, levas uma solha no focinho que nem sabes
de que terra és!
A moçoila, que observara a bruta
cena à distância, aproximou-se, passou por mim e, num esgar, com um
encolher de ombros, disse: -
Ora, deixa lá isso, pá! Ele diz isso a todos os que dançam comigo…
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