Pé-descalço,
maus caminhos
Desde muito cedo, após rescaldo
da 2ª Grande Guerra, que me habituei a ver os demais a andar
descalços. Eu, que, aos poucos, fui sabendo que aquele ritual era
moda, não fui de modas e acabei por aderir à ritualidade.
Rua abaixo, rua acima, vinhas e
pomares adentro, era ver a malta a correr, em pé pelado, para se
desenvencilhar dos predadores que nos cercavam. Na rua, eram os
matulões, que, a pretexto de mostrarem a sua valentia, se aprestavam
para nos acertar o passo,
mas, de botifarras calçadas, não tinham hipóteses. A fuga dos
pequenotes era sempre coroada de êxito. Nas vinhas e pomares, ainda
era mais difícil a captura dos infantis. Se, num salto, se subia à
macieira, de um pulo se descia da cerejeira. Os seus donos, já
vergados pelas maleitas
da idade (40-50 anos), quando pretendiam encetar a perseguição aos
ratoneiros, mal podiam com os pés, quanto mais com as botas… E, no
meio de todas as regalias,
apenas dois fatores quebravam aquela onda de felicidade: uma topada
numa pedra mais saliente, aquando dos jogos de bola com a antiga
trapeira, ou quando, na fuga, algum espinho de tojo ou de pilriteiro
se atravessava no nosso caminho e se nos cravava na planta do
calcante.
Até a pisar uvas se levava
vantagem. Ninguém teria que passar pelo incómodo de se descalçar e
voltar a calçar, ao invés dos calçados que, não tendo as
condições mínimas para lavar os pés e pernas, impregnadas de
mosto até às virilhas, nem sequer ousavam entrar na lagaragem.
Quando chovia, o prazer era
enorme! Andar a saltar e a patinhar naquelas poças de água e nas
valetas, era um regalo só ao alcance dos predestinados,
coisas de que os pé de chumbo das botas não podiam usufruir.
Eram estes os argumentos que a
rapaziada utilizava para persuadir os “resistentes” a deixarem-se
de mariquices
e mandarem as botas às malvas;
convencê-los de que só malta fixe teria aptidão para ser um
pé-descalço. Pura higiene. Sempre de pés arejados, sem o bad
smell dos calçados.
Agora, que estamos na Era em que
até já há sapatos de fibra ótica, perguntem ao pessoal da minha
idade: - Era bom andar de pé-descalço, de calcante ao léu? Eles
responderão: - Claro que era!
Todavia, não posso escamotear
duas verdades insofismáveis, pelas quais me senti profundamente
incomodado. Pessoas fracas, por demais preconceituosas, tentaram
colocar-me à margem da sociedade. Certo dia, teria os meus dez anos,
quando, em trânsito apeado, de Vale da Pinta para o Cartaxo, tive a
lata
de pedir boleia a um carro que se aproximava. O “bondoso” do
homem, o taxista Porto Artur, atendendo à minha petição polegar,
até parou e mandou-me entrar. Porém, ao ver que eu apresentava os
pés “inundados” de poeira da estrada de macadame, gritou:
- Eh, pá!... Rua! Queres sujar-me
o carro, ou quê?
Segui a pé. Contudo, ao sair da
estrada poeirenta e entrar no troço alcatroado, já dentro do
Cartaxo, ali mesmo em frente à porta do Manuel Colega, ouvi, da
parte deste:
- Eh, pá! Então tu sujas os pés
em Vale da Pinta e vens limpá-los ao Cartaxo?
Eu só queria marcar a minha
chancela pedonal no asfalto. Mas a verdade é que, já na época, não
havia bela sem senão.
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