Os
Bailes dos Pagãos (I)
Decorria a segunda metade da
década de 50. Neste período, pese embora o vagaroso andamento,
quando não inércia, com que se aceitava e aderia a novas
tendências, fomos, paulatinamente, envolvidos pelas famigeradas
ondas do rock-and-roll e da minissaia. O Bill Haley, com o seu Rock
Around the Clock, cujo ritmo tirava qualquer puritano do sério, já
era ídolo; Elvis Presley, acabado de chegar, ia-se impondo, mas a
grande bomba, que estaria por aí a rebentar, seria o produto
concebido por Mary Quant, a provocante minissaia. Não tardaria a
fazer furor, também, no Cartaxo. Mas, aqui, atenção: o ritmo com
que o fenómeno foi aceite no concelho, quanto a mim, terá sido
demasiado lento. Os pais que, de um modo geral, não permitiam que as
filhas namorassem antes dos dezoito anos, não iriam aceitar que as
divas andassem, rua acima rua abaixo, a exibir as pernaças ao gáudio
e dentuça arreganhada do pagode. Nem pensar! Eram dois dedos abaixo
do joelho… e chegava. Pelo exposto, dá para perceber que
estávamos, ainda que de forma embrionária, ao virar da esquina para
um novo conceito de vida.
Os bailes que, até então, eram
abrilhantados pelo jazz da terra, pelo acordeonista regional, ou,
até, por um qualquer desenrasca tocador de gaita-de-beiços,
ganharam um outro elã. A marcha, a valsa, o slow e o chá-chá-chá,
nunca seriam extintos de qualquer repertório, mas iam passando de
moda. O rock e o twist tomaram-se na primazia na nova geração.
Assisti, nessa época, nesse virar de página, a conflitos de
interesses geracionais, a gostos antagónicos tais que, quando a
discussão azedava, virava tudo ao sopapo.
Começaram, então, a surgir nos
grandes centros urbanos, alguns conjuntos ligeiros, em forma de
rockeiros,
cujos elementos eram idolatrados pelo público mais jovem, mas no
concelho essa moda ainda era uma miragem. Cá pelo burgo, bastava-nos
que o baile fosse abrilhantado pelo “Boa Noite” ou pelo “Palmo
e Meio” e já era garantia de casa cheia, o que era bem bom. Com
repertórios muito semelhantes, a puxar para umas marchinhas, uns
slows e umas brasileiradas, era tudo o que nos podiam oferecer. Ao
invés, quando se tratava de acordeonistas como o Paixão, a Lisete
Ramos, a Júlia Bicha ou a Liberdade de Oliveira, as entradas eram
bem mais baratas, mas, paradoxalmente, a afluência e a consequente
exploração eram bem menores.
Nas freguesias, embora com algumas
nuances,
os bailes tinham lugar nas instalações da “Música” ou da
“Bola”. No Cartaxo, estava a nascer o fino Ateneu, mas já
existiam a “Música” e o Pátio das Comédias. Nesta verbena, por
ser ao ar livre, os bailes eram realizados na época de verão, à
noite e eram quinzenais. Em noites de enchente, julgo não exagerar
se disser que o recinto teria uma assistência a rondar o meio milhar
de pessoas.
Definindo o Pátio das Comédias,
direi que era o estereótipo do baluarte da originalidade da
convivência ribatejana. Ali afluíam pessoas das mais variadas
origens e segmentos sociais, onde, com um copito a mais, se gerava
uma espécie de Babel em ponto pequeno. A cada comportamento
intempestivo, uma resposta com duplo impropério.
Sem comentários:
Enviar um comentário