O Cartaxo Empresarial (II)
A par das largas dezenas de
estabelecimentos que emolduravam toda a zona central do Cartaxo, e
dentro de um outro ramo, algo fino, lá estavam, de portas e montras
viradas à Batalhoz, as escolas de costura e bordados, representando
as marcas Singer, Husqvarna,
Oliva e Pfaff.
Não entrava nelas quem
queria. Na verdade, não eram precisas habilitações maiores que a
4ª classe, mas aquelas que não fossem dotadas de boa figura e
porte, ai não entravam, não! Também o excesso de exsudação era
tido em conta, pela negativa, já se vê. Quem fosse atreita a
transpiração, que o fizesse em casa.
Falando de costura, não se pode
deixar de referenciar os ateliers
da Estini, da Esmeralda, do Catela, do Pindelo, da Gertrudes Pita e
da Isabel Nicolau. Eram autênticos ninhos de formação das
raparigas, muitas delas ainda teenagers.
Foram casas que marcaram uma época. Era ver a rapaziada das oficinas
que, sacrificando a, já de si curta, hora de almoço, comiam com
sofreguidão só para arranjar uns minutos que lhes permitissem o
pavoneamento pelas redondezas, quase sempre de bicicleta, para
deitarem o olho às costureirinhas que por ali trabalhavam. Eles
viam, mas também queria ser vistos. Dava para ver que as pomposas
popas, com o risco muito alinhado, desde a testa ao cocuruto, tinham
sido trabalhadas a preceito nos minutos que antecediam o romântico
périplo.
Ao cair da tarde, terminada que
estava a jornada laboral e arrumadas a agulhas e dedais, quem por ali
deambulasse e estivesse minimamente atento, assistiria a um autêntico
desfile da saída das meninas, também elas bem penteadas a rigor,
melhor brunidas e com uma descarada, mas encenada sobranceria, com
desdém, como convinha, para atrair os olhares dos rufiões. Pela rua
Batalhoz acima, ou abaixo, segundo as coordenadas do azimute
do destino de cada uma.
Dava gosto vê-las, quais formiguinhas, à procura de rumo.
Todavia não se pense que, pelo
facto de elas conviverem, no dia-a-dia, com a média costura, estavam
em regime de cumplicidade com esta... A umas quantas só lhes faltava
dormir à noite, com os vestidos de dia. Tanto assim era que, certa
vez, quando, vindo do trabalho, passei na estreita Travessa da
Senhora, fui insultado por uma atrevidota, de um grupo de três
moçoilas da vila, que me atirou: - Olha, aqui vai mais amostra da
miséria de carrapatoso!
Perante tal afronta, eu, que não
era um puto dócil, respondi: - Miséria és tu, que andas sempre com
o mesmo vestido!
No dia seguinte, voltei a passar
naquela calçada e dei de frente com a mãe da Leta, a tal
provocadora. A velha, em gritaria, como era timbre daquela gente,
disse, então, para uma das suas vizinhas: - Já estou a ver, que
tenho que comprar um vestido à minha Leta! Este carrapatoso diz que
ela anda sempre com o mesmo vestido!...
Ah, pois! Melhor seria que o
fizesse, porque, já sem cor e a ganhar brilho, não tardaria a ficar
impermeável.
Leta à parte, algumas das
costureirinhas forasteiras,
formando grupinhos, juntavam-se ali pelas bandas do Grémio da
Lavoura, para, numa caminhada de quase quatro quilómetros,
retornarem a Vale da Pinta. No dia seguinte tudo se repetia.
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