Cenas
da Feira dos Santos (II)
Neste circo de bolso, havia, como
adereços, uma chibata de marmeleiro, uma muito coçada manta lobeira
e um desengonçado e lascado escadote. O cenário, amovível, estava
a cargo dos espetadores, num círculo formado pelos próprios.
A cena do galo (cena I), a que não
tive oportunidade de assistir, já fora. Agora, na cena II, era a vez
da cadela-ursa careliana, que ziguezagueava, enquanto a macaca lhe
saltava sobre o dorso, ora para cá, ora para lá. À voz do
adestrador, que, em simultâneo, golpeava o chão ao som da chibata,
incitando: “pula la
macaca, salta la ursa”,
aquilo não estava mal engendrado, não senhor. Eu e os demais putos
arregalávamos os olhos, embevecidos pela bem sincronizada
demonstração de arte por parte dos bichos. Agora, entrava-se na
cena III. A cabra das Astúrias teria como função subir o débil
escadote e, no topo, executar um qualquer número artístico, o qual,
por motivo de força maior, não chegou a ser exibido. Pois foi! A
cabrinha, nervosa, talvez pelo vozeirão áspero com que estava a ser
tratada pelo seu adestrador, ainda subiu até ao cimo, mas, quando se
aprestava para exibir a manobra seguinte, entalou uma pata nas gretas
do esburacado tampo, cujo desfecho desatou numa infernal berraria que
deixou toda a assistência perplexa, condoída e incomodada. O homem
do bigode, acolitado pela partenaire,
tentava, à bruta, desprender a patita do animal, mas debalde. Aquilo
era operação delicada, a ser tratada com pinças, não por meio de
puxões, como era o caso. O público, que não gostava do que estava
a ver, desatou numa monumental assobiadela, reprovando a ação do
adestrador. A indignação era tal que já havia alguns desordeiros
da terra - os costumeiros - que se propunham amachucar o pelo
a toda a troupe,
piolhoso incluído. Foi então que, no sentido de evitar males
maiores, os cartaxeiros António Aguadeiro, o Peito
d’Aço e o Jaime Caria,
afastaram o artista da triste cena e tomaram as rédeas da delicada
operação. Enquanto o primeiro segurava o escadote e o segundo a
cabra, o Jaime, de navalha de ponto-e-mola
em riste, ia recortando, em tiras, a orla de madeira que envolvia a
pata da artista. Libertado que estava o animal, foi este colocado nos
braços do dono, perante um misto de aplausos e vaias, cada um com
seu destinatário.
No rescaldo do triste espetáculo,
que terminou logo por ali, ainda que a tríade tenha escapado ilesa,
sob o ponto de vista físico, à ira dos espetadores, não se livrou
de ouvir umas bocarras da geral,
a puxar para o ordinarote.
A velha, a tal Rosalina
que nada fez durante todo o espetáculo, foi apelidada de bagaceira
e remelosa;
o rapazola, pedinchão da boina, foi mandado para a catadura do
piolhame e desinfeção
da mona, à base de
Quitoso;
ao gerente-mor e adestrador, valeu-lhe continuar com a cabra no colo,
afagando-a. Foi esse gesto de ternura que lhe valeu de não ter
apanhado umas valentes murraças naquele imundo bigode.
Para o ano havia mais. Mais uma
Feira dos Santos, bem entendido, porque cenas como a fuga do touro,
os
choques
do tio Porreiro
nos carrinhos de choque, e a desdita da cabra das Astúrias, eram
dispensáveis.
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